Os amigos da Sosaci se despediram da Lea Depresbiteris no sábado, na missa de 7º dia. Mario, seu companheiro de 35 anos, levou este lindo quadro que retrata muito bem a amiga numa mesa de boteco no Mercadão. Vou pra festa do Divino de São Luiz do Paraitinga, mas esse ano não vai ser a mesma coisa sem a Léa.Os sacis também vão sentir falta dessa figura tão delicada, sempre pronta pra cometer alguma gentileza. Salve Léa!
segunda-feira, 30 de abril de 2012
Até os sacis vão sentir falta da Léa
Os amigos da Sosaci se despediram da Lea Depresbiteris no sábado, na missa de 7º dia. Mario, seu companheiro de 35 anos, levou este lindo quadro que retrata muito bem a amiga numa mesa de boteco no Mercadão. Vou pra festa do Divino de São Luiz do Paraitinga, mas esse ano não vai ser a mesma coisa sem a Léa.Os sacis também vão sentir falta dessa figura tão delicada, sempre pronta pra cometer alguma gentileza. Salve Léa!
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Muitas opções pra aproveitar o feriadão em Sampa
No Centro Cultural Banco do Brasil, essa exposição precisa ser vista com tempo, porque os vídeos que compõem o conjunto à mostra são muito ilustrativos da cultura indiana. Objetos, arte, vídeos, e recortes da cultura milenar estão ali. As religiões presentes na India também são um capítulo à parte.
Data: Até 29 de abril de 2012no CCBB - Rua Álvares Penteado, 112 - Centro
Terça a domingo, das 9h às 21h | Telefones: (11) 3113-3651/52 - Entrada franca
No Instituto Moreira Salles, uma mostra de fotos do mexicano Manuel Álvarez Bravo. De terça a sexta, das 13h às 19h e Sábados, domingos e feriados, das 13h às 18h. (Rua Piauí, 844, 1º andar, Higienópolis - Tel.: (11) 3825-2560)
algumas fotos do mexicano Álvarez Bravo
No 1º de Maio da CUT, aqui em São Paulo, vai ter shows e feira gastronômica. No dia 30 tem shows e a feira gastronômica (promete ser muito boa, vai ter até o rojão), e no dia 1º shows e palavrórios próprios das comemorações de 1º de maio - tudo isso no Anhangabau.
Vejam a programação completa aqui
Vejam o catálogo disponível aqui
quinta-feira, 26 de abril de 2012
Feira gastronômica na Virada Cultural
Alex Atala inaugura atração gastronômica do Minhocão na Virada Cultural servindo 500 porções de sua Galinhada Dalva e Dito*
Para conhecer a programação completa da Virada Cultural clique aqui
quarta-feira, 18 de abril de 2012
As delícias de Goiânia
Os biscoitos, são capítulo à parte. Este biscoito de polvilho frito está pra Goiás como o pão de queijo está pra Minas. Com um cafézinho doce...
A pamonha, então, nem se fala. Em Goiás só se come pamonha salgada. Aqui em São Paulo só comemos a doce. As de lá são recheadas com linguiça, queijo ou jiló. A massa não é blocada como a nossa, é cremosa e temperada. Muito boa.
O pequi aparece aqui, nos licores da Nonô. Puro ou com chocolate. Eu que não sou fã de bebidas doces, sou freguesa do licor de chocolate com pequi. Segundo a Nonô, ela juntou dois ingredientes do amor - o pequi e o chocolate.
Então, se forem a Goiânia, visitem a Feira do Cerrado, que acontece todos os domingos das 9h às 13hs, perto do estádio Serra Dourada. Depois posto um pouco do artesanato.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
4º Festival Internacional do Filme de pesquisa sobre história e memória da escravidão moderna
segunda-feira, 26 de março de 2012
Ricardo Maranhão: O alimento como estudo
Por Cláudio Fragata // Fotos Antônio Rodigues
Natural de Piracicaba,
interior de São Paulo, o
historiador Ricardo Frota
de Albuquerque Maranhão é um
apaixonado pela gastronomia.
Formado em história e ciências
sociais pela USP-Universidade de
São Paulo ("As duas carreiras são
complementares e necessárias",
diz), a paixão surgiu por acaso,
quando conheceu professores
versados no assunto durante um
congresso na França, em 1998. De
volta ao Brasil, trocou a história
da energia, sua especialidade até
então, pela história da alimentação.
Nascia assim o primeiro professor
dessa disciplina no país. Em 1999,
participou da criação do pioneiro
Curso Superior de Tecnologia em
Gastronomia, da Universidade
Anhembi Morumbi, de São Paulo,
onde hoje, além de dar aulas,
coordena o Centro de Pesquisas
em Gastronomia Brasileira, que,
entre outras atividades, promove
o estudo de pratos e ingredientes
de nossa culinária. Autor prolífico
- escreveu 22 livros -, Ricardo
pretende se dedicar mais à literatura
gastronômica nos próximos anos,
mas já publicou obras fundamentais
como Árabes no Brasil, História e
Sabor (Editora Gaia/ Boccato, São
Paulo, 2010) e O Frango, História e
Gastronomia (Usina da Edição, São
Paulo, 2011). Perdeu a conta do
número de artigos que produziu
para revistas especializadas e
de palestras que deu não só no
Brasil como em universidades da
França, Canadá, Holanda, México,
Cuba e Alemanha. Embora seja
fascinado pela cozinha brasileira,
seu coração também oscila entre a
culinária chinesa e a francesa. Não
se arrepende da escolha que fez e
garante que, acima das culinárias,
está seu amor pela alimentação:
"Ninguém precisa ser marxista
para perceber que a base de tudo é a
busca por alimento."
Como chegou à história da alimentação?
Meu doutorado foi dentro da
história da energia e trabalhei
focado nesse tema durante muitos
anos. Até que me inscrevi na
Associação Francesa para a história
da eletricidade, ligada ao grupo EDF
(companhia de energia elétrica da
França). No segundo congresso do
qual participei, conheci professores
que sabiam tudo sobre a história
da alimentação e tinham livros
publicados sobre o assunto. Há
dez anos, não havia no Brasil uma
bibliografia significativa nessa
área, além dos livros de Câmara
Cascudo e de Gilberto Freyre.
Esses professores franceses me
abriram um mundo novo e fui me
interessando cada vez mais por ele.
A ponto de se tornar professor de história da alimentação...
Exatamente, mas foi uma grande
coincidência. Após um ano
estudando o assunto por conta
própria, surgiu em São Paulo, em
1999, o primeiro curso superior
de gastronomia do Brasil, na
Universidade Anhembi Morumbi,
e fui convidado para dar aulas.
Sou o primeiro professor de
História da Alimentação, tanto
que fui chamado para dar aulas
também na FMU-Faculdades
Metropolitanas Unidas e no
Senac de Águas de São Pedro e de
Campos do Jordão. Eu criei essa
disciplina no Brasil. Hoje me dedico
apenas ao curso da Anhembi
Morumbi, onde criamos o Centro
de Pesquisas em Gastronomia
Brasileira. Tenho ali um apoio
institucional para a pesquisa que é
uma beleza.
Quantos livros de gastronomia já escreveu?
Escrevo livros há muito tempo
e a maioria é sobre história do
Brasil. Na área da culinária,
publiquei, em 2010, Árabes no
Brasil, História e Sabor, e, no
final do ano passado, lancei O
Frango, História e Gastronomia.
Escrevi também, em 2008, um
capitulo do livro Churrasco: Uma
Paixão Nacional, a convite do
chef André Boccato. Daqui para
diante vou publicar mais livros
de gastronomia porque venho
acumulando muito conhecimento
nos últimos anos.
Já se pode falar em uma culinária brasileira?
Temos várias cozinhas regionais
e uma culinária nacional em
processo de constituição. Como se
formaram as culinárias nacionais
mais importantes, como a francesa
ou a italiana? Sempre a partir da
regional! Houve um momento, na
segunda metade do século 19, em
que a própria construção de um Estado
liberal democrático e a noção
de cidadania exigiram que todos os
cidadãos fossem reconhecidos como
iguais, como válidos, e, portanto,
sua cultura também. É quando os
compositores eruditos começam a
transformar cançonetas populares
em sinfonias e surgem artistas
plásticos retratando o povo etc. A
gastronomia também passou por
esse processo, foram buscar as culinárias
regionais para melhorar o
cardápio dos grandes restaurantes
de Paris e constituiu-se assim uma
culinária francesa. Pouco mais
tarde, aconteceu o mesmo na Itália,
apesar das idiossincrasias regionais.
Percebeu-se que, do ponto de
vista econômico, era interessante
constituir uma culinária nacional
porque ela permitia uma associação
com as políticas econômicas de
Estado, de exportação e de importação.
A renda da França com vinhos,
manteigas e queijos é uma coisa
fantástica. O Brasil está passando
por essa fase agora.
Qual a razão do nosso atraso?
Devemos isso à Corte
portuguesa, que veio para o Brasil
e sufocou essa tendência normal de
formação de uma cozinha nacional.
Nossas culinárias regionais foram
subjugadas pela culinária francesa
que ela trouxe para cá. Não era
só a rainha Carlota Joaquina que
odiava a cozinha nacional. Todos
aqueles 15 mil aristocratas vindos
com a Família Real também não
gostavam, só queriam saber da
culinária francesa. Evidentemente,
os fazendeiros brasileiros que
almejavam a nobreza, e ganharam
títulos de barão de não sei quê,
imitavam a Corte. Não existe em
nenhum arquivo histórico deste
país um cardápio daquela época
que não seja escrito em francês. Até
a Primeira República, o menu das
elites era francês.
Entre as diversas cozinhas
regionais brasileiras, qual a
sua preferida?
Uma das que mais prezo, até por
regionalismo pessoal, é a mineirapaulista,
que todos chamam
apenas de mineira, porque foram os
mineiros que fizeram o patrimônio
dessa cozinha. Na verdade, foram
os paulistas que levaram, na época
do ouro, essa comida para lá e ela
foi se desenvolvendo. Eu a considero
uma culinária muito sofisticada.
Só não é mais sofisticada do que a
baiana. Refiro-me à cozinha baiana
do Recôncavo, a de Salvador, não
a da Bahia como um todo, que
já é outra coisa. O vatapá é um
prato chiquérrimo, elegantíssimo,
sua técnica e a variedade de
ingredientes são uma coisa incrível.
Eu considero as duas melhores
culinárias brasileiras.
Existe uma culinária paulista?
Culturalmente não. Porque a
cultura paulista abandonou a sua
história. É uma coisa característica
de São Paulo e muito diferente
de qualquer outro Estado. No
Maranhão, no Rio Grande do Sul,
em Pernambuco, todos têm orgulho
da sua história, de seus heróis e
da sua comida. Mas o paulista se
esqueceu de sua história, ela virou
uma bruma para o paulista médio.
Na verdade, com a imigração houve
um desvio de atenção muito grande
em relação ao que existia antes, em
termos de tradição. Sobretudo em
relação à cozinha colonial. Acho
ótimo que os italianos tenham
trazido seu macarrão, os alemães
suas salsichas e cervejas, isso tudo
é muito bom, mas seguramente
diluiu um pouco a importância do
que havia antes. Além disso, há
essa mística paulista de ir sempre
para frente, em direção ao futuro.
São Paulo é a cidade que mais
cresce no mundo!
Como se para alcançar o futuro
fosse necessário apagar o
passado?
Exatamente. "Vamos logo
derrubar essas mansões da
avenida Paulista e fazer belíssimos
edifícios!" Essa é a mentalidade,
que também despreza a tradição
culinária. Mas eu defendo a cozinha
paulista do interior. Acrescentemos
a ela a pizza e o macarrão... (risos)
Seria por isso que a cidade de
São Paulo não tem restaurante
especializado em cozinha
paulista?
Só teve um e não foi pra frente.
Chamava-se São Paulo I e ficava
na entrada do shopping Eldorado.
Muito bom por sinal, mas não
pegou. Ninguém assume essa
vanguarda. É uma culinária que
pode ser muito bem feita, essa
comida interiorana, boa, que
hoje se encontra mais no Vale do
Paraíba e no oeste do Estado.
Que produto brasileiro pode
ter projeção internacional?
Um que já tem, e que pode
ser muito bom quando bem feito,
é a feijoada. Ela realmente já é
internacional, já tem esse prestígio,
isso é indiscutível. Mas já estão
começando a aparecer os produtos
que irão constituir a culinária
nacional, pratos que estão saindo de
suas regiões e que começam a ser
feitos em outros Estados. É o caso do
churrasco, que era gaúcho e agora
é nacional. O mesmo já acontece
com o acarajé, que é baiano, mas
aqui em São Paulo já tem em vários
lugares. O virado à paulista está
começando a ser feito em outros
Estados, porque é muito prático,
ideal para um almoço executivo;
não é comida de fim de semana, é
para o meio da semana. O pessoal
também está aprendendo a fazer
o frango com quiabo mineiro.
Engraçado que não existia esse
prato na Bahia, que é um lugar que
tem bastante quiabo, mas agora
perceberam que é bom.
O frango com quiabo mineiro
tem chance de virar um prato
nacional?
Ah, não tenho dúvida. Assim
como o vatapá está virando. Eu
até incluí a receita de vatapá de
frango em meu livro e, no dia do
lançamento, o servimos na forma
de finger food durante o coquetel.
O que faz um prato regional
entrar para o cardápio
nacional?
Quando os restaurantes servem
comidas de outras regiões e esses
pratos começam a se reproduzir,
é a aí que a culinária se constitui.
Foi o que aconteceu com a carne
seca. Antes era um produto típico
do Nordeste e do Rio Grande do Sul.
Agora é um prato comum em São
Paulo, onde até canapés de carne
seca são servidos em coquetéis.
Então eu acho que é um produto
que já está entrando nessa pauta da
culinária nacional. Veja o caso da
casquinha de siri. Ela é cultivada
há mais tempo no Nordeste, mas
em todo lugar tem siri. Hoje é
consumida no Brasil inteiro. Sabe
onde eu comi a melhor casquinha
de siri da minha vida? Em Porto
Alegre! Tem muito lá na Lagoa dos
Patos, uma lagoa salobra, que é a
melhor coisa para caranguejo e siri.
Adaptações em receitas
tradicionais fazem parte do
processo de constituição de
uma culinária?
Existe uma corrente de chefs
mais ortodoxa que prega: "Nós
temos que resgatar a maneira
como a Dona Fifinha, do Sertão
do Ceará, fazia o seu jabá." A
Mara Salles é um exemplo disso,
embora ela modifique e aperfeiçoe
as receitas, para que a comida se
torne mais apresentável do ponto
de vista estético e comercial, mas
ela preza muito a maneira original,
tradicional. Agora existem outros
que também pesquisam a cozinha
brasileira, mas que se propõem a
torná-la factível. Talvez a maneira
como a Dona Fifinha preparava o
seu jabá seja muito difícil, porque
você não tem fogão a lenha e outros
itens necessários para isso. Então
a reinvenção é mais comum. Às
vezes acontece naturalmente
porque a pessoa vem lá do Ceará,
chega aqui e não tem as mesmas
panelas, os mesmos ingredientes,
então ela inventa. Além disso, o
brasileiro é muito versátil, tanto
que prepara com facilidade as
coisas estrangeiras. Quem não sabe
fazer quibe, esfirra, estrogonofe,
pizza, todas essas coisas que os
imigrantes trouxeram? Nós temos
muito disso, incorporamos muito
fácil. Assim, fazer a reinvenção dos
pratos originais é moleza...
A reinvenção faz parte de
qualquer gastronomia?
É complicado responder isso
porque alguns lugares são muito
tradicionalistas. Imagino que se
alguém chegar para um alemão da
Prússia e fizer diferente o chucrute
com linguiça, o sujeito vai ficar
muito bravo. As culinárias mais
ricas e tradicionais não têm essa
preocupação como nós temos, a
de reinventar. Os chineses, por
exemplo, têm pratos típicos que vão
desde as montanhas geladas do
norte aos pântanos tropicais do sul,
quer dizer, têm de tudo. Essa imensa
variedade permite a eles manter as
tradições. Não precisam reinventar
na medida em que têm
sempre alguma outra opção.
Entretanto, acredito que
a reinvenção é um dado
fundamental para que as
cozinhas se tornem
melhores. A cozinha inglesa
do século 19 definiuse a partir
de um padrão ruim e foi um
processo consciente. Existe um
livro de grande sucesso na época,
chamado Uma Cozinha Econômica
Para as Classes Trabalhadoras, que
retrata isso. Eu tenho esse livro
em casa e as receitas são uma
porcaria (risos). Para se fazer uma
cozinha mais econômica, tudo ali
foi reduzido. A culinária moderna
inglesa melhorou muito, mas antes
tiveram 200 anos dessa coisa.
Qual é a sua culinária
internacional preferida?
São duas, a chinesa e a francesa.
A primeira tem uma grande
habilidade no uso de vegetais junto
com as carnes. Essa noção yin-yang
que eles têm começou no século
4 a.C. É a sabedoria do equilíbrio,
dos princípios ativos da vida,
então qualquer região chinesa tem
pratos muito equilibrados. Quando
existe uma tendência muito yang,
uma carne de porco temperada,
por exemplo, é contrabalançada
com legumes bem leves, mais
yin. O tempo todo eles fazem esse
equilíbrio. Outra coisa é a maneira
como eles preparam os peixes,
sempre valorizando o ingrediente
sem excesso de temperos. Puxa,
eles fazem isso há 3 mil anos,
prezam a pureza, o sabor original
dos alimentos, uma coisa que a
Nouvelle Cuisine francesa adotou
só nas últimas décadas. Os chineses
não põem sal no peixe, apenas um
pouco de shoyu na hora de comer.
Eles têm pequenas maravilhas
tradicionais, como o camarão ao
gengibre. Deus, é uma coisa tão
boa! Não sei por que os restaurantes
chineses daqui não fazem.
O que destacaria da culinária
francesa?
De imediato, sem muito esforço,
o uso privilegiado de aspargos é
uma coisa impressionar. Eu me
lembro de quando comi na casa de
um dos historiadores que conheci
no congresso de Paris. A entrada
tinha uns aspargos que eram uma
coisa de louco, com seis molhos
diferentes. Foi inesquecível. Além
disso, gosto muito da maneira que
os franceses fazem os assados. Para
cada tipo eles têm um preparo
diferente. O churrasco francês
também é muito bom, compete
com o gaúcho. E gosto dessa coisa
interminável, que é a quantidade de
saladas que eles fazem.
Os brasileiros já se
envergonham menos da
culinária brasileira?
Por enquanto, só uma elite
mais bem informada, que está
começando a ter uma visão positiva
da culinária brasileira graças a
esse movimento de renovação que
começou há algumas décadas.
Mas, do ponto de vista do público
médio, a melhor cozinha ainda é
a estrangeira. Isso é uma luta, um
trabalho de divulgação que demora.
Todo hábito culinário demora a se
estabelecer tanto quanto demora
a desaparecer. A única coisa que
desapareceu depressa foi o coquetel
de camarão (risos).
Gastronomia é coisa de elite?
Essa ideia surgiu na imprensa
brasileira. Os antigos críticos eram
acima de tudo homens simpáticos,
que iam aos restaurantes mais caros
e sofisticados, os donos serviam suas
melhores iguarias e eles escreviam
a respeito. Penso que a palavra
"gastronomia" ficou restrita a esse
mundinho, como sinônimo de
restaurante chique, então o leitor
também passou a achar isso. Na
verdade, o uso tradicional do termo
gastronomia se refere à comida
como um todo, de todas as classes,
de todo o mundo. Esse era o sentido
da palavra para Jean Anthelme
Brillat-Savarin, como também
para os outros que escreveram a
respeito no século 19. Gastronomia
é uma coisa muito mais ampla.
Aqui a palavra se desviou do
sentido original. Com as escolas de
gastronomia pudemos consertar
esse desvio e voltar a chamar de
gastronomia tudo o que diz respeito
ao homem quando ele come, que é a
definição de Brillat-Savarin.
Em que medida a culinária
árabe influenciou a brasileira?
Há duas influências diferentes:
uma que é milenar, que vem de
quando os árabes entraram na
Península Ibérica. Eles tinham uma
grande capacidade de absorção dos
melhores costumes dos lugares
por onde passavam e dominavam.
Então de uma culinária
basicamente simples, de homens
do deserto, eles incorporaram a
riquíssima culinária persa, logo no
início da expansão muçulmana,
depois as culinárias do Egito e
do norte da África, e chegaram à
Península Ibérica com esse cabedal.
Encontraram lá uma culinária
que já tinha sofrido a influência
dos romanos, daquelas comidas
bem temperadas, perfumadas,
todas essas coisas que o português
passou a gostar. E os portugueses
nos trouxeram isso. Então é uma
influência árabe antiga que vem
via Portugal. Além dessa, tem a
influência do imigrante árabe, no
final do século 19, que é essa do
quibe e da esfirra.
Em que região do Brasil essa
influência foi maior?
No Brasil inteiro. Na Bahia,
por exemplo, tem muito árabe e
uma influência bastante presente.
O árabe tinha muita facilidade
de comunicação, até por ser um
bom comerciante. Eu tenho uma
experiência pessoal: minha mãe
era vizinha de uma mulher árabe
e surgiu aquela coisa de conversar
por cima do muro do quintal. Em
pouquíssimo tempo, minha mãe
aprendeu muitas coisas da deliciosa
cozinha árabe. Além do quibe e da
esfirra, aprendeu a fazer charuto de
folha de uva ou de repolho, kafta,
homus... Na verdade se o japonês
fosse menos tímido, todo mundo
aprenderia a fazer sushi (risos).
Seu novo livro é um tratado
sobre o frango, um alimento
que está na mesa de todas as
classes sociais...
Quando a gente se preocupa
com alimentação, todos os
extratos são importantes. Existe a
necessidade política e cultural de se
falar da comida cotidiana. Devemos
lutar para que o homem comum
coma sempre o melhor possível
todos os dias. Isso é uma meta
inexorável de um bom gastrônomo,
de alguém que trabalha com
gastronomia, de alguém que dá
aula sobre isso. Eu quero que todo
brasileiro coma muito bem todos
os dias. Então é essa a proposta
de O Frango, História e Gastronomia.
Primeiro mostro que é algo
realmente milenar, universal, o
que é interessante, porque a maior
parte das pessoas não sabe disso
e nem que essa ave descende do
dinossauro. Além disso, incluí uma
série de receitas muito tradicionais
em suas regiões e que muitas vezes
as pessoas não sabem fazer e são
ótimas. No Brasil se faz mil tipos
de frango, mas agora vamos fazer
2 mil (risos)! Eu e o chef Paulo
Machado, que executou os pratos,
refugiamo-nos em uma fazenda e
fizemos 35 tipos de frangos, para
testar as receitas.
O frango chegou aqui com os
portugueses, não?
É o único contato cultural de
um alimento que tem data exata,
que é o dia 28 de abril de 1500,
quando Cabral mostra a galinha
para os índios e eles levam o
maior susto (risos). Embora os
índios não comessem galinha até
recentemente, eles usavam os
ovos. Mas agora já existem várias
receitas indígenas com frango.
Uma delas está lá no livro, feita
pelas crianças indígenas do Alto
Rio Negro. É um frango grelhado
com batata doce, abóbora e
mandioca cozida. Uma delícia!
E a culinária japonesa já deu
sua contribuição ou apenas
convive com a culinária
brasileira?
Acredito que é apenas uma
convivência de restaurantes. Não
vejo brasileiros fazendo comida
japonesa em casa. Já poderiam
fazer, mas isso não acontece. Não
conheço ninguém que faça sushi
em casa. O que eu tenho visto, no
máximo, é alguém jogar legumes
no macarrão e dizer que está
fazendo yakisoba (risos). Então
acho que a influência se limita
aos restaurantes, tanto que já tem
mais restaurante japonês do que
italiano.
São Paulo continua a ser
a capital gastronômica do
Brasil?
Sem dúvida, porque tudo
rebate aqui. Quem procura
encontra em São Paulo tudo o
que se come no Brasil. Só não
encontrei até hoje onde se come
babaçu e, naturalmente, os peixes
da Amazônia. Aliás, os peixes de
rio desapareceram de São Paulo.
Os paulistas acabaram com os
rios, não é? No entanto, no século
19, era rotina popular comer
peixe. Existe até uma charge do
caricaturista Angelo Agostini,
em uma revista de mil oitocentos
e pouco, que tira um sarro dos
paulistanos falando que em São
Paulo a única coisa que tinha para
comer era lambari com chuchu.
Mas o peixe de água doce sumiu
da dieta dos paulistanos. Desde
os anos 40, todos os rios piscosos
foram desaparecendo.
quarta-feira, 7 de março de 2012
Os ataques à Comissão Nacional da Verdade
Está claro que os inimigos do povo se utilizarão de todos os métodos para inviabilizar a comissão
Brasil de Fato - Editorial - 07/03/2012
A mais recente movimentação de setores militares da reserva objetivando impedir o conhecimento público e a investigação de fatos ocorridos principalmente entre 1964 e 1988 expressa o que há de mais atrasado e retrógrado. É mais um ataque, dos vários que estão por vir, à Comissão Nacional da Verdade. O pacote reacionário que se apresentou no nefasto manifesto “Alerta à nação – eles que venham por aqui não passarão”, além buscar neutralizar ou acabar com a Comissão da Verdade, também tenta deslegitimar instituições democráticas e pessoas que se dedicam à luta pelos direitos humanos.
Toda sociedade humana tem direito à memória. Portanto, esse é um ataque à sociedade brasileira e ao seu direito de registrar sua própria história. O tal manifesto com seu tom ameaçador, intimidador e golpista é típico dos piores inimigos da humanidade. Esses senhores se acham no direito de sufocar a memória histórica do povo brasileiro que é carregada de heroísmo e lutas sociais.
Toda sociedade humana tem direito à verdade. Os signatários desse manifesto são justamente aqueles que cometeram perseguições, torturas e assassinatos durante a ditadura civil-militar, entre o período de 1964 e 1988. São os mesmos que não querem permitir que esses crimes sejam de conhecimento público, investigados e punidos. A sociedade e as famílias dos brasileiros e brasileiras que foram vítimas da repressão dos militares têm direito à verdade. Ou seja, quem ordenava os assassinatos e perseguições? Quem eram os torturadores? Onde estão os corpos dos desaparecidos políticos?
Mesmo tendo sido um manifesto de militares da reserva, ele expressa o caráter reacionário, conservador e autoritário da classe dominante brasileira. Os ataques dos milicos não pouparam nem mesmo o ministro da Defesa Celso Amorim que prontamente desvinculou o manifesto de qualquer iniciativa das forças armadas brasileiras. Os milicos não suportam e não aceitam o compromisso com a verdade e com os direitos humanos externado pela ministra da Secretaria de Direitos Humanos Maria do Rosário e pela ministra da Secretaria de Políticas Públicas para Mulheres Eleonora Menicucci.
Sabemos que a reação de setores militares e civis incidiu no processo de formulação da Comissão Nacional da Verdade para que no final das contas predomine a impunidade. Está claro que os inimigos do povo se utilizarão de todos os métodos para inviabilizar a comissão. Isso significa que o aprofundamento das investigações e principalmente o elemento da justiça só ocorrerá se a sociedade se mobilizar.
Toda sociedade humana tem direito à justiça. Algumas das perguntas que fazemos relacionadas aos crimes da ditadura militar já têm respostas, outras estão em documentos sob rígido controle das forças armadas. Saber a verdade dos fatos desse período nos proporciona as bases para lutarmos por justiça. É necessário saber a verdade, mas também é necessário punir os criminosos. Nesse sentido, nunca é demais lembrar que países como Argentina e outros da América do Sul têm avançado bastante no direito à verdade e à justiça, investigando e punindo os crimes dos militares. A Organização dos Estados Americanos (OEA) não se cansa nos seus relatórios de ressaltar e criticar o atraso brasileiro na prestação de contas com os crimes desse período histórico.
Por isso é fundamental ficarmos atentos às movimentações públicas e subterrâneas desses senhores que não têm nenhum compromisso com o povo brasileiro. Faz-se necessário nesse momento nos organizarmos para defender o direito à memória, à verdade e à justiça. Ou seja, temos que enraizar e popularizar esse desafio da luta pela verdade e justiça junto ao povo brasileiro. Somente assim teremos capacidade de isolar os setores reacionários da sociedade brasileira e abrir espaço para que a verdade se encontre com a justiça. Isso significa que devemos sair na defesa da Comissão Nacional da Verdade e nos mobilizarmos para que ela tenha plenas condições para realizar seus trabalhos. Não podemos permitir que o impasse tome conta da Comissão da Verdade.
Mesmo com todos os esforços dos setores conservadores para não sabermos a verdade dos fatos e para que não haja punição aos crimes cometidos pelos militares, existe um elemento sobre o qual a classe dominante brasileira não tem controle: a memória coletiva do povo brasileiro. No conteúdo da memória coletiva do povo brasileiro encontramos seu protagonismo em diversas lutas sociais, seu compromisso com a verdade e a justiça e as bases para a construção de um Projeto Popular para o Brasil. A memória coletiva do povo brasileiro mais cedo ou mais tarde despertará.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Entrevista especial com Lúcio Flávio Pinto
''No Pará não apenas o grileiro consegue se apropriar das terras públicas, como ainda se precisa indenizá-lo quando se denuncia''.
Vítima de um processo de indenização por dano moral, movida por empresário já falecido, o jornalista afirma que a grilagem de terras no Brasil se intensifica todas as vezes que há alguma incerteza econômica.Confira a entrevista - Instituto Humanitas Unisinos.
Imagine
a cena. Você é jornalista e decide usar seu trabalho para denunciar um
empresário que se considerou dono de uma terra pertencente ao patrimônio
público. O fato é comprovado judicialmente. No entanto, o empresário
usa o poder financeiro para deixar claro que não gostou de uma expressão
utilizada em sua denúncia. Você é processado por danos morais ao tentar
esclarecer a opinião pública e defender o patrimônio nacional. E o
pior: você é condenado pela justiça a indenizar o grileiro ofendido.
Resumidamente, este é o caso real do jornalista Lúcio Flávio Pinto, que concedeu a entrevista a seguir, por telefone, para a IHU On-Line, relatando detalhes do processo do qual é vítima.Durante um longo percurso, ele afirma que só perdeu para a justiça. “Desde 1992 venho sofrendo processos por pessoas que não têm a mínima preocupação em esclarecer o público, que não exercem o direito de resposta e que encontraram no poder judiciário um cúmplice, para me impedirem de continuar a exercer o jornalismo, o que eu faço há 46 anos. Então, era o limite. E resolvi não recorrer dessa decisão”, desabafa, ao assumir o que tem pela frente. “Estou perfeitamente consciente: vou pagar o preço por tentar mobilizar a sociedade, por tentar fazer com que ela perceba que não é um problema individual, mas um problema social grave o que eu estou enfrentando”. Afinal, resume, “no Pará não apenas o grileiro consegue se apropriar das terras públicas, como ainda se precisa indenizá-lo quando se denuncia”. E o jornalista enfatiza: “o Tribunal se transformou em um lugar onde os criminosos estão conseguindo ganhar. Ninguém provou que o que eu disse era mentira, mas eu sou condenado. Não me deixam o direito de provar”. Ao final da entrevista, ao ser questionado se gostaria de acrescentar mais algum comentário ao debate, Lúcio Flávio exclamou: “socorro”. Foi uma brincadeira, mas que reflete o sentimento deste cidadão brasileiro.
Jornalista profissional desde 1966, atualmente Lúcio Flávio (foto) dedica-se ao Jornal Pessoal, informativo
quinzenal que escreve sozinho há mais de 20 anos baseado em Belém. No
jornalismo, recebeu quatro prêmios Esso e dois Fenaj, da Federação
Nacional dos Jornalistas, que em 1988 considerou o Jornal Pessoal
a melhor publicação do Norte e Nordeste do país. Por seu trabalho em
defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em
1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace. Em 2005 recebeu o prêmio anual
do Comittee for Jornalists Protection – CPJ, de Nova
Iorque, pelas denúncias que tem feito em seu jornal na defesa da
Amazônia e dos direitos humanos. Tem 12 livros publicados, todos sobre a
Amazônia, dentre os quais: Hidrelétricas na Amazônia,
Internacionalização da Amazônia, CVRD: a sigla do enclave na Amazônia,
Guerra amazônica, Jornalismo na linha de tiro e Contra o poder. É sociólogo, formado pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo.Confira a entrevista.
Pode explicar brevemente o caso da grilagem de terras e do processo movido pela Construtora C.R. Almeida contra você?
Em 1995, Cecílio do Rego Almeida adquiriu o controle acionário de uma empresa de Altamira, chamada Incenxil. Com essa compra, vieram vários papéis, que eram registros e que estavam no cartório, embora não tivessem o título para que essas terras passassem do domínio do estado para o domínio particular. Com esse controle ele se considerou dono de uma área em que apenas uma das fazendas somaria quatro milhões e 700 mil hectares. Um ano depois, em 1996, o Instituto de Terras do Pará – Iiterpa entrou com uma ação de cancelamento e anulação desses registros, por serem fraudulentos. A ação foi recebida pelo então juiz de Altamira, onde hoje está sendo construída a hidrelétrica de Belo Monte, e a empresa recorreu para o Tribunal. O primeiro a dar uma sentença favorável foi o desembargador João Alberto Paiva, que restabeleceu a plenitude do registro que havia sido cancelado pelo juiz local da comarca. Em seguida, o estado também apelou, entrando com interdito proibitório para impedir que qualquer pessoa entrasse nessa vastidão, que caso se constituísse um estado, seria o vigésimo primeiro maior estado do Brasil. A desembargadora Maria do Céu Cabral Duarte concedeu o interdito proibitório antes mesmo de receber o pedido. Todas essas irregularidades eu fui denunciando, porque também sou muito amigo do que era então diretor do departamento jurídico do Iterpa. E nós preparamos, juntos, uma ação para cancelar esses registros. Cecílio ficou extremamente irritado com a minha participação e com os meus artigos. E entrou na comarca de São Paulo com uma ação de indenização por dano moral, porque se considerou ofendido pelo uso da expressão “pirata fundiário”. Essa ação foi deslocada de São Paulo para Belém, porque o local certo é Belém. Mas o juiz de São Paulo que recebeu também uma ação parecida contra um repórter da revista Veja, movida por um vereador de Altamira, não aceitou a ação. E não apenas inocentou os réus, como também os elogiou, dizendo que estavam defendendo o patrimônio público.
Eu fui o único condenado, em 2006, por um juiz que não era o titular da vara onde estava o processo. Ele ocupou essa vara por apenas um dia e devolveu o processo quando a titular já havia retomado o controle da vara. Ele não podia mais decidir. E para que a sentença dele tivesse validade, assinou com data retroativa de quatro dias anteriores. Eu fui condenado a pagar oito mil reais de indenização, retroativas a 1999, quando saiu meu artigo no Jornal Pessoal, que é um quinzenário que mantenho aqui, que com os juros e correção monetária, daria hoje 20 mil reais. Eu recorri, mas o Tribunal negou vários recursos, inclusive quando o autor da ação (Cecílio do Rego Almeida) morreu, em maio de 2008. Foi mantida a sentença. Durante esse longo percurso de 11 anos, eu só perdi e várias arbitrariedades foram cometidas. Quando o processo finalmente subiu para Brasília, foi descoberto um erro formal, que fez com que o presidente do Superior Tribunal de Justiça não aceitasse o recurso. Nesse momento, achei que já era demais, porque desde 1992 venho sofrendo processos por pessoas que não tem a mínima preocupação em esclarecer o público, que não exercem o direito de resposta, e que encontraram no poder Judiciário um cúmplice, para me impedirem de continuar a exercer o jornalismo, o que eu faço há 46 anos.
Então, era o limite. E resolvi não recorrer dessa decisão. Abri uma subscrição pública para as pessoas que quisessem contribuir para indenizarmos o grileiro. Espero agora que o processo venha com a execução da sentença. E no dia em que for para pagar, vou comparecer e vou convidar todas as pessoas que participaram dessa subscrição para irmos fazer um ato simbólico no Tribunal, que é entregar o dinheiro e mostrar que no Pará não apenas o grileiro consegue se apropriar das terras públicas, como ainda se precisa indenizá-lo quando se denuncia.
Quem denuncia é punido
A revolta foi ainda maior porque, em novembro do ano passado, a Justiça Federal de primeiro grau aceitou uma ação do Ministério Público Federal e mandou cancelar os registros do Cecílio do Rego Almeida, porque eram indevidos. Ou seja, reconheceu que realmente ele fez uma grilagem. Então, para a Justiça Federal trata-se de uma grilagem. Para a justiça de São Paulo, quem denunciou não apenas não deve ser processado, como deve ser elogiado, porque defendeu o patrimônio público da apropriação ilícita. E para o Tribunal de Justiça do Pará, que tem a jurisdição sobre o segundo maior estado da federação, quem denuncia é punido e as maiores arbitrariedades são cometidas, porque não apenas o tribunal favorece o grileiro, mas também quer se livrar de um crítico incômodo. Todos esses anos em que estou sendo processado na justiça, desde setembro de 1992, em 33 processos, tenho sido vítima de uma perseguição da justiça do Pará. Eu sou talvez o único jornal, embora pequenino, que mostra todos os erros do tribunal. E não é só contra mim que o tribunal faz isso. É que a justiça do Pará é muito ruim.
O que lhe motivou a desistir de recorrer à justiça neste processo? Qual o significado político deste gesto?
É justamente mostrar que eu estou em um julgamento político. A lei foi deixada de lado, a verdade foi deixada de lado, meus argumentos não foram considerados, as provas dos autos foram ignoradas para me punir, para me calar, para me intimidar. Meu Jornal Pessoal tem 25 anos e ele é sempre crítico, nunca foi desmentido, porque sempre tive essa cautela de só escrever sobre aquilo que posso provar em qualquer estância, administrativa ou judicial.
A maneira que eles encontraram foi criar um processo político, em que não interessa o que eu estou dizendo, mas que tenho que ser condenado. Já que eles agiram politicamente, eu resolvi reagir politicamente. Mostrar que eles querem que se pague para um grileiro que está se apropriando de uma área no Pará do tamanho da Bélgica, onde moram 10 milhões de pessoas. Então, vamos pagar.
Agora, o culpado é o Tribunal de Justiça do Pará. Tem gente boa lá? Tem. Tem gente competente? Tem. Mas que não tem nenhum acesso ao poder, que não modificam as decisões. O Tribunal se transformou em um lugar onde os criminosos estão conseguindo ganhar. Ninguém provou que o que eu disse era mentira, mas eu sou condenado. Não me deixam o direito de provar. Então, eu quis fazer uma denúncia aproveitando uma arbitrariedade do Tribunal para que a opinião pública não só saiba, como também participe, porque quem doou dinheiro para pagar a indenização está aceitando pagar o sujeito que só não foi para a prisão porque completou 70 anos e a prescrição da pena que cabia a ele já estava prescrita pela idade dele. Se não fosse isso, ele teria uma ordem de prisão da justiça federal. E para a justiça do estado, ele tem razão. As pessoas estão contribuindo e espero que logo adiante se alcance essa estimativa no valor da indenização. Nestes próximos dias estou lançando um livro contando todos os fatos e citando os nomes de todas as pessoas que participaram disso que eu chamo de um "gulag tropical".
O que esse episódio evidencia sobre a situação da grilagem de terras no país? O que está em jogo nessa questão?
Em primeiro lugar, mostra que tem que se apoiar no CNJ para aumentar o controle externo do poder Judiciário, que é, dos três poderes constitucionais, o que está menos visível e o que está mais refratário ao controle da sociedade. Em segundo lugar, a grilagem se intensifica todas as vezes que há alguma incerteza econômica. Então, as pessoas que têm dinheiro procuram, comprando terras, criar uma reserva de valor contra as ameaças reais, possíveis ou imaginárias, da economia. As terras, pelo seu baixo valor e pelo conceito errado do uso dos recursos naturais da Amazônia (que torna a terra mais importante do que a floresta), se tornam uma reserva de valor certa para os especuladores. Por isso, em momentos de crise, a grilagem e o desmatamento crescem, porque a Amazônia é uma reserva do país, sobretudo dos grupos poderosos que têm dinheiro para investir e manter grandes áreas como instrumentos de especulação imobiliária e financeira. Então, o que precisa ser feito é moralizar o registro de terras que até hoje, apesar dos avanços tecnológicos, continua precário. Os cartórios, por exemplo, fazem o que querem.
Se as terras em questão pertenciam ao patrimônio público, porque o dono da Construtora C.R. Almeida se disse ofendido por ser chamado de “pirata fundiário”? Ou seja, chamar grileiro de grileiro é crime?
Ele está na lógica dele. Ele quer um pretexto para me intimidar, para me calar, já que comprar, ele não podia. Então, ele inventou essa história. Não deu certo em São Paulo, mas deu certo em Belém. Então, ele tentou e se deu bem. As conexões mostram que foi uma conspiração real e que o objetivo dele era de que não interessasse o que eu estava dizendo, eu seria condenado. E para isso ele usou do seu poder. E não é só um poder que veio do fato de ele ter 1,90m de altura, ou por ele ser um sujeito agressivo, mas é o poder do dinheiro. A fortuna do grupo C.R. Almeida hoje está calculada em 5 bilhões de dólares.
Como você se sente, pessoalmente, como cidadão e jornalista brasileiro, diante do episódio?
Quando eu vi a decisão do STJ, fiquei perplexo, desanimado, com vontade de ir embora do Brasil, porque mesmo em uma democracia houve o abuso do poder econômico. Mas depois decidi reagir e de uma forma que eles não esperavam, pois acharam que eu ia continuar preso ao processo. Resolvi ultrapassá-lo, sabendo dos riscos de perder a primariedade e de pagar a indenização. Então, estou perfeitamente consciente: vou pagar o preço por tentar mobilizar a sociedade, por tentar fazer com que ela perceba que não é um problema individual, mas um problema social grave o que eu estou enfrentando.
Como está a situação atual de Belo Monte e do rio Xingu? Quais os desafios atuais a serem enfrentados na região diante da construção da hidrelétrica?
Eles estão fazendo a mesma coisa que foi feita em Jirau, no rio Madeira: estão criando fatos consumados. Até a multa que o Ibama aplicou à Norte Energia, ao consórcio que está construído, nos faz pensar se é para valer ou se é como um “banho de piranha”, para desviar a atenção, porque a multa é excessiva, não se justifica ao delito que eles cometeram, que é simples. O governo está sendo rigoroso e o resultado concreto disso é que os fatos vão avançando. Hoje já é difícil colocar em questão se Belo Monte será construída ou não. Parece que agora vai mesmo ser construída. No entanto, o que se pode fazer para atenuar os problemas? Acho que essa é uma questão que ainda ninguém examinou com rigor, porque não se tem uma visão completa da situação. Talvez esta seja a linha de transmissão mais cara da história do Brasil.
Vai representar uns 60% do custo da obra de geração. Então, o grande desafio para Belo Monte não é construir, pois eles vão construir de qualquer maneira, mas é o dia seguinte. Quanto irá custar? Qual será o prejuízo? Qual será o subsídio? O governo do PT sempre foi contra a privatização, sempre acusou o PSDB de colocar o Estado a serviço dos interesses particulares. No entanto, a atual grande marca do governo do PT são as grandes obras, que continuaram desde o regime militar sem mudar nada, incluindo o dinheiro do BNDES e o tesouro nacional. As hidrelétricas anteriores não tinham esse esquema. Então, o caminho será o de questionar quem vai pagar essa conta e de quanto será, para atender ao desejo impulsivo e compulsivo de construir Belo Monte.






