segunda-feira, 30 de abril de 2012

Até os sacis vão sentir falta da Léa




Os amigos da Sosaci se despediram da Lea Depresbiteris no sábado, na missa de 7º dia.  Mario, seu companheiro de 35 anos, levou este lindo quadro que retrata muito bem a amiga numa mesa de boteco no Mercadão. Vou pra festa do Divino de São Luiz do Paraitinga, mas esse ano não vai ser a mesma coisa sem a Léa.Os sacis também vão sentir falta dessa figura tão delicada, sempre pronta pra cometer alguma gentileza. Salve Léa!

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Muitas opções pra aproveitar o feriadão em Sampa

São Paulo tem lá seus problemas, mas por outro lado, as opções culturais e de graça são muitas.  Às vezes penso que uma coisa compensa a outra.  Pra aproveitar o feriadão, algumas sugestões.



 Exposição Índia



No Centro Cultural Banco do Brasil, essa exposição precisa ser vista com tempo, porque os vídeos que compõem o conjunto à mostra são muito ilustrativos da cultura indiana.  Objetos, arte, vídeos, e recortes da cultura milenar estão ali. As religiões presentes na India também são um capítulo à parte.

Data:    Até 29 de abril de 2012no  CCBB - Rua Álvares Penteado, 112 - Centro
Terça a domingo, das 9h às 21h | Telefones: (11) 3113-3651/52 - Entrada franca



Guerra e Paz, de Portinari





Exposição que ocupa 3 espaços do Memorial da América Latina e mostra o processo de produção dos painéis que hoje estão em exposição na ONU. Os painéis foram restaurados e podem ser vistos num salão enorme. Lindos 
  Até 20 de maio de 2012, no Memorial da América Latina (Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664) - Horário: terça a domingo, das 9h às 18h. Visitem a página do Guerra e Paz




 Exposição de fotografias de Manuel Álvarez Bravo



No Instituto Moreira Salles, uma mostra de fotos do mexicano Manuel Álvarez Bravo. De terça a sexta, das 13h às 19h e Sábados, domingos e feriados, das 13h às 18h. (Rua Piauí, 844, 1º andar, Higienópolis - Tel.: (11) 3825-2560)

algumas fotos do mexicano Álvarez Bravo 





 Feira gastronômica no 1º de Maio

 


No 1º de Maio da CUT, aqui em São Paulo, vai ter shows e feira gastronômica. No dia 30 tem shows e a feira gastronômica (promete ser muito boa, vai ter até o rojão), e no dia 1º shows e palavrórios próprios das comemorações de 1º de maio - tudo isso no Anhangabau.
Vejam a programação completa aqui



Cineclube Cinemateca



Essa é pra ver em casa. No site Cineclube Cinemateca se pode ver on-line e de graça filmes completos de 26 grandes diretores, pelo menos cinco longas de cada diretor, com os cartazes originais de lançamento, a maioria em grande formato. São 140 títulos (há acréscimos e trocas). 75% deles são falados, dublados ou legendados em inglês, 30%, em espanhol. 25% em francês, 20% em italiano, 10% em português e 9% em alemão.
Vejam o catálogo disponível aqui


quinta-feira, 26 de abril de 2012

Feira gastronômica na Virada Cultural




Alex Atala inaugura atração gastronômica do Minhocão na Virada Cultural servindo 500 porções de sua Galinhada Dalva e Dito*

 “Chefs na Rua – Mercado e Cultura Gastronômica” reunirá 22 Chefs famosos no Minhocão. Pratos custarão entre R$ 5 e R$ 15

Erick Jacquin servirá a tradicional sopa de cebola das 2 às 6 da manhã. Demais chefs entram no circuito de 20 barracas a partir das 8 horas do domingo.

Mercado Mundo Mix inicia suas atividades às 17 horas do sábado e apresenta novas tendências

O elevado Costa e Silva, mais conhecido como Minhocão, entra no perímetro da 8ª edição da Virada Cultural de São Paulo. Nele estarão concentradas duas atrações: Chefs na Rua – Mercado e Cultura, inédita na Virada Cultural, e o Mercado Mundo Mix, que retorna ao evento com novos talentos e ideias do mundo da arte, música, moda e design. 

Com a curadoria de Checho Gonzales e Daniela Narciso, Chefs na Rua – Mercado e Cultura Gastronômica unirá a alta gastronomia à comida de rua em 20 barracas, nas quais o público poderá saborear pratos preparados por chefs renomados. A atração começa à meia noite do domingo, dia 6, com 500 porções da Galinhada Dalva e Dito de Alex Atala. Duas horas depois, o francês Erick Jacquin entra no circuito para servir a tradicional sopa de cebola até às 6 da manhã. Os demais chefs darão sequência na ação a partir das 8 horas do domingo. 
Os pratos serão vendidos a preços populares, entre R$5 e R$15. Para o pagamento será aceito apenas dinheiro. Também fazem parte do cardápio os pratos: Sanduíche de Copa Lombo, por Henrique Fogaça, Arroz Carretero com Pipoca, por Marcio Silva, Tostadas y Micheladas, por Lourdes Hernández, Espetinho de Polpetini de Cordeiro, por Marco Soares, Sanduiches de Pernil em Escabeche e de Frango Defumado, por Paula Labaki e o bom e velho pão de queijo e bolo com café, por Heloisa Bacellar. 
O Mercado Mundo Mix, retorna à Virada Cultural com ideias e tendências do mundo das artes, música, moda e design. A atração começa às 17 horas do sábado, dia 5 e vai até o fim do evento no domingo. Criado em 1994, no Brasil, o Mercado Mundo Mix chegou a Portugal em 2003 e passou por Lisboa, Porto, Coimbra, Cascais e Lagos. 
Confira a programação do Minhocão na Virada Cultural 2012
Local: Elevado Costa e Silva (Minhocão).
Acesso pelas ruas Sebastião Pereira (altura do número 90), Ana Cintra (altura do número 200) e Helvétia (altura do número 800).
Mercado Mundo Mix
Sábado, 05, e domingo, 06, das 17h às 20h. 
Chefs na Rua
Domingo, 06, das 00h às 20h.
Capacidade: em média 2 mil refeições por chef/barraca
Preços acessíveis (R$5 a R$15)
00h – 02h | Alex Atala – Galinhada Dalva e Dito
Entusiasta da comida com identidade, Alex Atala é reconhecido internacionalmente pelo seu desempenho como proprietário do contemporâneo D.O.M (que figura entre os melhores restaurantes do mundo) e consagrado por sua busca incessante de produtos brasileiros de origem. O Chef sobe ao minhocão à meia-noite do dia 6 de maio para inaugurar o evento servindo 500 porções da famosa Galinhada Dalva e Dito.
02h – 06h | Erick Jacquin – Sopa de Cebola
O badalado Chef Erick Jacquin, dono do La Brasserie, o restaurante francês mais premiado de São Paulo, é referência no que se trata de alta gastronomia, mas confessa que adora uma boa comida de boteco. No Brasserie, a especialidade do francês é o foie gras mas para o evento Jacquin servirá a tradicional sopa de cebola das madrugadas da cidade de SP. 
08h – 20h | Dagoberto Torres - Arepas y Ceviches
Colombiano de nascimento, a história de Dagoberto Torres mostra o quanto é versátil: começou com uma barraca de cachorro quente, abriu uma pizzaria, dedicou-se aos estudos e assumiu um restaurante contemporâneo de sucesso em Bogotá. Há 2 anos, sócio e Chef do Suri, está preparando para oferecer no evento seu ceviche clássico e arepas (espécie de pão achatado, numa versão à base de canjica) com carne de porco e guacamole. 
08h – 20h | Danilo Rolim - Montaditos y Tapas
A fama de Danilo Rolim Komessu começou antes da profissão, cozinhando para os colegas de Direito na São Francisco até conquistar o diploma. Depois decidiu cursar gastronomia na Anhembi e no Paul Bocuse em Lyon. Seu bar foi eleito o melhor de comidas, mérito às suas criações com forte influência espanhola, sua dedicação nipônica e estudos sobre a cultura gastronômica brasileira. Terá opções de montaditos e tapas variados. 
08h – 20h | Janaína Rueda - Puchero à Love Story
Janaína Rueda comanda o badalado bar e restaurante localizado num dos pontos mais emblemáticos da cidade, o Edifício Copan. Sua história tem tudo a ver com o centro, lembra os domingos de infância passeando no Minhocão; além disso, já cozinhou várias vezes durante a Virada Cultural. Conquistou uma legião de fãs, pelo seu desempenho na cozinha e pelo cardápio repleto de pratos substanciosos como esse caldo espanhol que prepara: o Puchero à Love Story. 
08h – 20h | Carol Brandão - Trio de Guloseimas
Foi na padaria do pai que Carolina Brandão se interessou por pães e bolos. Intrigada com o processo de preparo dos alimentos, Carolina deixa Araraquara e vai estudar gastronomia em Águas de São Pedro. Em São Paulo, consegue um estágio com Carla Pernambuco, hoje sua sócia. Em 2011 abrem o Las Chicas, uma Gourmet-Garage. É de lá que traz o trio de guloseimas: mini monkey brownie, copinho de arroz doce com doce de leite e coco, quindim com nozes. 
08h – 20h | Henrique Fogaça - Sanduíche de Copa Lombo
Dividindo o tempo entre a cozinha do Sal Gastronomia e os vocais da banda Oitão, Henrique Fogaça ocupa desde 2005 um lugar no pátio da Galeria Vermelho, que foi de um balcão, pensado apenas para Café, a um restaurante que mantém o clima intimista e a cozinha autoral do Chef Rock n'Roll. É nesse ritmo que servirá o sanduíche de copa lombo com vinagrete de maçã e queijo meia cura, logo depois do show do Oitão na Virada Cultural. 
08h – 20h | Benny Novak - Baby Back Ribs & Sweet Corn
O terceiro restaurante de Benny Novak é talvez aquele que mais tem a sua cara. Vidrado na adrenalina da cozinha, Benny recriou em São Paulo o clima típico dos Diners americanos, com trilha sonora e decoração, culminando no cardápio repleto de gostosuras, como as costelinhas de porco ao molho barbecue acompanhadas do milho verde levemente adocicado. 
08h – 20h | Luiz Emanuel - Steak Tartare e Batatas Fritas
Com a mesma intensidade que vive, Luiz Emanuel tem no passado uma temporada como DJ e dono de balada, o seu trabalho com os Chefs Laurent Saudeau e Marc Le Dantec, e o sucesso que fez em seu restaurante Allez, Allez! Sua preciosa habilidade é preparar receitas clássicas francesas e reunir num mesmo prato diferentes combinações de textura e sabor. Seu prato para o evento representa sua expertise: Steak Tartare e batatas fritas. 
08h – 20h | Leandro Freitas e Henry Miguel Caceres - Sushis e Sashimi
É de dentro de uma Kombi que a dupla de experientes sushimen, Henry Caceres e Leandro Freitas faz pratos tradicionais da culinária japonesa com toques contemporâneos, firmando a marca registrada do Nakombi há mais de 15 anos. Entre seus pratos de maior sucesso, destacamos Sunomono de lula, o Guioza preparado artesanalmente, o Temaki de Salmão e o Kombinado da Virada (sushis e enrolados de califórnia, skin, sushi de salmão, uramaki de salmão). 
08h – 20h | Marcio Silva e Daniela Amendola - Arroz de Carreteiro com Pipoca
O bem sucedido modelo de duplo comando na cozinha é marcado pela inventividade e técnica. Inspirados no arroz (Oryza em latim), nome e tema do restaurante, Marcio Silva e Daniela Amendola brincam com o conceito moderno de bistronomia – alta gastronomia, ambiente despojado e preços acessíveis. O arroz carreteiro da Virada é um bom exemplo: típico prato brasileiro com arroz agulhinha e carne seca, em fundo clássico francês, salpicado de pipocas crocantes. 
08h – 20h | Raphael Despirite - Hot Dog à Francesa
Idealizador do projeto Cozinha Bossa Nova que toca em parceria com Chefs amigos da nova geração, e com um fôlego de dar inveja - pois comandar um restaurante e correr maratonas ao mesmo tempo não é para qualquer um -, Raphael Despirite enfrenta mais uma prova: servir hot dog à francesa na baguette durante a Virada Cultural. 
08h – 20h | Daniela França Pinto - Polenta Cremosa com Cogumelo Crocante
Com uma cabeça cheia de ideias e um currículo vasto de empreendedorismo, Daniela França Pinto comanda dois restaurantes de conceitos distintos: o Lola Bistrot & Bar à Vin, de cardápio clássico e delicado, e o criativo Marcelino Pan Y Vino cujo foco está nas produções em forno à lenha, nos pães orgânicos e no prato que tirou do cardápio há pouco tempo, mas que volta para o evento: Polenta cremosa com cogumelos crocantes ou ragú de linguiça de javali. 
08h – 20h | Vitor Sobral, Luis Espanada e Hugo Nascimento - Bolinhos de Bacalhau e Salada
Em perfeita sintonia, os sócios da Aromateca se revezam cruzando o Atlântico para comandar uma equipe de talentos portugueses que operam em duas casas, uma em Portugal e outra aqui. O resultado é visto na delicadeza de temperos que aplicam em receitas clássicas portuguesas. Para a Virada, Hugo servirá os famosos Bolinhos de bacalhau da Tasca e a Salada de bacalhau e grão de bico em molho especial. 
08h – 20h | Checho Gonzáles - Choripan
De origem boliviana e estudioso da gastronomia andina, Checho Gonzáles abdicou de ter seu próprio restaurante para dedicar-se aos eventos e consultorias. Seu passado inclui sucessos como o Na Mesa, Zazá Bistrô, e Ají. Para o evento, servirá o clássico sanduíche da Bacia do Prata, o Choripan, sanduíche de pão e salsicha com molhos variados. 
08h – 20h | Lourdes Hernández - Tostadas y Micheladas
La Cocinera Atrevida, como ela se define, a guisandera e jornalista Lourdes Hernández esbanja ousadia ao trazer receitas típicas mexicanas com toques de criatividade. Seus molhos são preparados com ingredientes de origem, conferindo a seus pratos um sabor único. Costelinhas de Porco em tempero especial que só ela faz, Tostadas de cochinita pibil e revoltijo en salsa verde e Caldito de trasnochados serão os pratos servidos entre doses de Mezcal e outros drinks. 
08h – 20h | 08h Carlos Ribeiro - Buraco Quente de Picadinho Campeão
O paraibano Carlos Ribeiro divide seu tempo entre as panelas do seu restaurante, consultorias e aulas de culinária brasileira para estrangeiros que ministra mundo afora. Seu picadinho Paulista, premiado como o melhor da cidade, será servido em versão “buraco quente”, com o mesmo sabor de sempre, dentro de um crocante pão francês. 
08h – 20h | Rodrigo Oliveira - Baião de Dois do Mocotó
O talentoso Rodrigo Oliveira transformou a casa de produtos nordestinos do seu pai no restaurante que virou case de sucesso internacional. Fiel às origens, dedica-se de corpo e alma ao seu restaurante e à pesquisa de novos ingredientes e receitas. Rodrigo servirá o conhecido baião de dois e os inusitados dadinhos de tapioca. 
08h – 20h | Marco Soares - Espetinho de Polpetini de Cordeiro
Depois de 23 anos atuando em cozinhas estreladas da Europa, entre eles o Plaza Athénée de Paris, o mineiro Marco Soares retornou às suas origens e comanda a cozinha do Oliva Restaurant em um ousado projeto que traz à mesa toda a sua bagagem e experiência da  alta gastronomia internacional. Para o evento, fará duas opções do popular espetinho: de polpetini de cordeiro e de kafta mineirinho de galinha caipira com queijo.
08h – 20h | Paula Labaki - Sanduíches de Pernil em Escabeche e de Frango Defumado
Paula Labaki levou a sério os ensinamentos culinários da mãe cozinheira e seguiu a tradição familiar de se dedicar à boa comida. Para o evento, criou dois sanduíches que representam sua história e a de tantos paulistanos: Pernil das Arábias (pão ciabatta e recheio de pernil assado em escabeche) e Virada Picante (pão sírio com frango defumado na serragem de goiabeira, pasta de queijo, chutney de manga e damasco picante). 
08h – 20h | Renato Carioni - Hamburguer de Pato com Maionese Trufada
Com nove anos de experiência em restaurantes renomados da Europa, o catarinense Renato Carioni comanda três restaurantes na capital paulistana, onde apresenta criações que remetem à sua temporada na Toscana. Ousado e seguro de sua maturidade profissional, criou para o evento um hambúrguer gourmet, à base de carne de pato e molho de maionese trufada. 
08h – 20h | Heloisa Bacellar - Pão de Queijo e Bolo com Café
Difícil saber o que vem primeiro: se ela cozinha porque ama a vida ou se ama a vida por que cozinha, mas também porque ama a sua venda cheia de coisinhas lindas e gostosas. Heloisa Bacellar aproveitou seu aprendizado na Cordon Bleu de Paris para fazer o impossível: melhorar as receitas de bolo da vovó e do típico pão de queijo (feito com queijo da Serra da Canastra) que conquistou o prêmio de melhor da cidade. Café? Sim, para acompanhar. 

* material produzido pela Foco Jornalístico para a Virada Cultural.

Para conhecer a programação completa da Virada Cultural clique aqui 

quarta-feira, 18 de abril de 2012

As delícias de Goiânia



Passear na Feira do Cerrado, em Goiânia, é dar um giro pela gastronomia básica dali.  Não podem faltar a pamonha salgada, os biscoitos doces e salgados, a galinhada, o feijão tropeiro e o empadão goiano.  O pequi não poderia faltar.  E está na galinhada, nos licores, nas farofas e em outras guloseimas. O pequi é uma fruta que pra mim se parece com Brasília - não existe meio termo: ou você gosta ou não gosta.Eu, claro, faço parte da turma que gosta. E muito. Aprendi a usar o pequi com minha amiga goiana Laurenice Noleto, a Nonô, que é jornalista de profissão, mas que largou tudo, ou quase tudo (de vez em quando tem umas recaídas), pra se dedicar a fazer licores. O carro-chefe? Chocolate co pequi. Ela mesmo diz que é o Amarula do Cerrado. Delicioso. 

Mas na feira o visitante encontra artesanato de primeira. Digamos que 99% do que é colocado à venda é feito pelos próprios expositores. Tirando uma única banca que vende coisas industrializadas, o restante é mesmo artesanal. 

A feira acontece num parque e as barracas são dispostas em ruas. Para o visitante é uma delícia, porque as barracas ficam sob as árvores. Então dá pra passear tranquilo, mesmo no calor de Goiânia.


 A parte da comida, que é a que mais me chama a atenção em todos os lugares que vou, não fica a dever. 

A galinhada é feita ali mesmo, à vista do freguês e é servida com uma salada tipo vinagrete (com ingredientes cortados maiores) e feijão tropeiro. 



 



Os biscoitos, são capítulo à parte.  Este biscoito de polvilho frito está pra Goiás como o pão de queijo está pra Minas. Com um cafézinho doce...


A pamonha, então, nem se fala. Em Goiás só se come pamonha salgada. Aqui em São Paulo só comemos a doce.  As de lá são recheadas com linguiça, queijo ou jiló.  A massa não é blocada como a nossa, é cremosa e temperada.  Muito boa.



O pequi aparece aqui, nos licores da Nonô. Puro ou com chocolate. Eu que não sou fã de bebidas doces, sou freguesa do licor de chocolate com pequi. Segundo a Nonô, ela juntou dois ingredientes do amor - o pequi e o chocolate.



Então, se forem a Goiânia, visitem a Feira do Cerrado, que acontece todos os domingos das 9h às 13hs, perto do estádio Serra Dourada. Depois posto um pouco do artesanato.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

4º Festival Internacional do Filme de pesquisa sobre história e memória da escravidão moderna



PROGRAMAÇÃO

/// De 10h às 12h
OS ESCRAVOS DE ONTEM (DEMOCRACIA E ETNICIDADE NO BENIN)
Les Esclaves d’Hier (Démocratie et Ethnicité au Bénin) / Os escravos de Ontem (Democracia e Etnicidade no Benin), de Éric Komlavi Hahonuu (Universidade de Roskilde, Dinamarca) e Camila Strandsbjerg (Universidade de Copenhagem, Dinamarca).
30 min., francês com legendas em português, 2011.
Prêmio do Juri no 4º festival do filme de pesquisa no Museu do Quai Branly (maio/2011) e no 2º festival do filme de pesquisa Cultura, Diáspora e Cidadania, em Lyon (fevereiro/2012).
PASSADOS PRESENTES: MEMÓRIA NEGRA NO SUL FLUMINENSE
de Hebe Mattos (UFF) e Martha Abreu (UFF)
Roteiro | Hebe Mattos, Martha Abreu e Isabel Castro
Fotografia | Guilherme Fernández
Montagem | Isabel Castro (Mestre em Cinema, Paris VIII e Paris III)
LABHOI-UFF, 43 min., português, 2011.
Sinopse: O filme apresenta momentos da história dos descendentes de escravos dos antigos domínios da família Souza Breves na região Sul do Estado do Rio de Janeiro, especialmente nas regiões do Bracuí e Pinheiral. Coloca em destaque uma vigorosa tradição oral que protege do esquecimento informações sobre o tráfico ilegal de escravos e sobre experiências de antepassados cativos e libertos.
RESULTADOS DO INVENTÁRIO DOS LUGARES DE MEMÓRIA DO TRÁFICO ATLÂNTICO DE ESCRAVOS E DA HISTÓRIA DOS AFRICANOS ESCRAVIZADOS NO BRASIL
Apresentação e debate com as historiadoras Martha Abreu e Hebe Mattos e o antropólogo Milton Guran, representante brasileiro no projeto “Rota do Escravo: Resistência, Herança e Liberdade" da UNESCO.

/// Às 14h
QUILOMBO (A OUSADIA DE LUTAR PELA LIBERDADE)
De Nina Tedesco (doutoranda de Comunicação Social da UFF) e Renata Azevedo Lima (pesquisadora e diretora de produção, historiadora da Fundação Cultural Casimiro de Abreu /RJ e mestranda de História da UFF).
17 min., português, 2010.
Sinopse: O filme investiga uma localidade na região serrana do município de Casimiro de Abreu (RJ) chamada “Quilombo”. O acesso é difícil, estrada de chão sinuosa e esburacada, com altitude mínima de cerca de 700m, abundância de água e terra fértil. Chegando lá, nenhum negro foi encontrado, apenas descendentes de colonos suíços. A questão “o nome do local tem relação com o passado de resistência dos escravos?” é o fio condutor do filme, que reúne entrevistas com moradores e ex-moradores do Quilombo, moradores da cidade de Casimiro e historiadores, além de belíssimas imagens da natureza do local, imagens de mapas e manuscritos sobre a região, produzidos no início do século 19, e ruínas arqueológicas. A trilha sonora é uma interpretação original de ritmos africanos
MARACATU ESTRELA DE OURO DE ALIANÇA
de Laure Garrabé (Doutora em Antropologia, Lyon 2/Paris VIII, França)
24 minutos, Amsterdam, 2010.
Sinopse: A Zona da Mata de Pernambuco, terra do açúcar na civilização dos ritmos é o berço do maracatu de baque-solto, forma de expressão local ao mesmo tempo dançada, musicada e dramatizada onde as estéticas negra e cabocla fabricam identidade sem etnicidade. Como a cada ano, desde esta Terra do Maracatu, o grupo Estrela de Ouro de Aliança inicia sua viagem de três dias e três noites durante o qual ele irá de cidades do interior até a capital, Recife, apresentar sua nação diante da Comissão carnavalesca para disputar a melhor performance do ano de 2007. Entre sons, cores e experiências, este filme mostra também ritmos: não apenas o baque-solto através do qual os maracatuzeiros se reivindicam e se dão a perceber, mas também a transformação de outras temporalidades (tradições, ritos, esperas, competição, fadiga, movimentos e voz) e sua industrialização progressiva respondendo às leis de entretenimento.
/// Às 15h
O MANUSCRITO PERDIDO
de José Barahona, documentário, Portugal/Brasil.
Fotografia | Marcela Bourseau
Montagem | Carolina Dias
Vencedor do Prêmio TV Brasil da 15ª Mostra Internacional do Filme Etnográfico
Produção | David, Golias/Refinaria Filmes, Portugal/Brasil
79 min., 2010
Sinopse: Através da busca pelo manuscrito perdido de Fradique Mendes, poeta e aventureiro português do século 19, o filme nos faz refletir sobre a colonização portuguesa, as origens da sociedade brasileira e algumas questões sociais contemporâneas, como a luta pela terra.

/// Às 17h
OS ESCRAVOS DE ONTEM (DEMOCRACIA E ETNICIDADE NO BENIN)
Les Esclaves d’Hier (Démocratie et Ethnicité au Bénin)/ Os escravos de Ontem (Democracia e Etnicidade no Benin), de Éric Komlavi Hahonuu (Universidade de Roskilde, Dinamarca) e Camila Strandsbjerg (Universidade de Copenhagem, Dinamarca).
30 min., francês com legendas em português, 2011.
Prêmio do Juri no 4º festival do filme de pesquisa no Museu do Quai Branly (maio/2011) e no 2º festival do filme de pesquisa Cultura, Diáspora e Cidadania, em Lyon (fevereiro/2012).

/// Às 17:30h
PASSADOS PRESENTES: MEMÓRIA NEGRA NO SUL FLUMINENSE
de Hebe Mattos (UFF) e Martha Abreu (UFF)
Roteiro | Hebe Mattos, Martha Abreu e Isabel Castro
Fotografia | Guilherme Fernández
Montagem | Isabel Castro (Mestre em Cinema, Paris VIII e Paris III)
LABHOI-UFF, 43 min., português, 2011.
Debate com as historiadoras Hebe Mattos, Martha Abreu, com representantes do grupo de Jongo de Pinheiral, do Quilombo do Bracuí e do Pontão da Cultura do Jongo e do Caxambu.

/// Às 19h
LANÇAMENTO DA CAIXA DE DVDs “PASSADOS PRESENTES” – com os filmes Passados Presentes. Memória Negra no Sul Fluminense (2011, de Hebe Mattos e Martha Abreu), Memória do Cativeiro (2005, de Hebe Mattos, Martha Abreu, Guilherme Fernandez e Isabel Castro), Jongos, Calangos e Folias, Música Negra, Memória e Poesia (2007, de Hebe Mattos e Martha Abreu), Versos e Cacetes, o Jogo do Pau na Cultura Afro-fluminense (2009, de Matthias Assunção e Hebe Mattos). Coquetel de lançamento na Livraria da Travessa do CCBB. Entrada franca.

4º FESTIVAL INTERNACIONAL DO FILME DE PESQUISA SOBRE HISTÓRIA E MEMÓRIA DA ESCRAVIDÃO MODERNA
Tema | CULTURA, DIÁSPORA E CIDADANIA
Centro Cultural Banco do Brasil,
Local | Cinema II | Rua Primeiro de Março, 66 – Centro
Telefone: (21 3808 2020)
Data | 25 de abril de 2011
Horário | de 10h às 19h
Entrada franca.
Metrô | Uruguaiana
Facilidades para deficientes

segunda-feira, 26 de março de 2012

Ricardo Maranhão: O alimento como estudo

Entrevista à revista Gosto Primeiro professor brasileiro de história da alimentação, o paulista Ricardo Maranhão, que já escreveu livros fundamentais sobre o assunto, é fascinado pela cozinha brasileira

Por Cláudio Fragata // Fotos Antônio Rodigues

Natural de Piracicaba, interior de São Paulo, o historiador Ricardo Frota de Albuquerque Maranhão é um apaixonado pela gastronomia. Formado em história e ciências sociais pela USP-Universidade de São Paulo ("As duas carreiras são complementares e necessárias", diz), a paixão surgiu por acaso, quando conheceu professores versados no assunto durante um congresso na França, em 1998. De volta ao Brasil, trocou a história da energia, sua especialidade até então, pela história da alimentação. Nascia assim o primeiro professor dessa disciplina no país. Em 1999, participou da criação do pioneiro Curso Superior de Tecnologia em Gastronomia, da Universidade Anhembi Morumbi, de São Paulo, onde hoje, além de dar aulas, coordena o Centro de Pesquisas em Gastronomia Brasileira, que, entre outras atividades, promove o estudo de pratos e ingredientes de nossa culinária. Autor prolífico - escreveu 22 livros -, Ricardo pretende se dedicar mais à literatura gastronômica nos próximos anos, mas já publicou obras fundamentais como Árabes no Brasil, História e Sabor (Editora Gaia/ Boccato, São Paulo, 2010) e O Frango, História e Gastronomia (Usina da Edição, São Paulo, 2011). Perdeu a conta do número de artigos que produziu para revistas especializadas e de palestras que deu não só no Brasil como em universidades da França, Canadá, Holanda, México, Cuba e Alemanha. Embora seja fascinado pela cozinha brasileira, seu coração também oscila entre a culinária chinesa e a francesa. Não se arrepende da escolha que fez e garante que, acima das culinárias, está seu amor pela alimentação: "Ninguém precisa ser marxista para perceber que a base de tudo é a busca por alimento."

Como chegou à história da alimentação?
Meu doutorado foi dentro da história da energia e trabalhei focado nesse tema durante muitos anos. Até que me inscrevi na Associação Francesa para a história da eletricidade, ligada ao grupo EDF (companhia de energia elétrica da França). No segundo congresso do qual participei, conheci professores que sabiam tudo sobre a história da alimentação e tinham livros publicados sobre o assunto. Há dez anos, não havia no Brasil uma bibliografia significativa nessa área, além dos livros de Câmara Cascudo e de Gilberto Freyre. Esses professores franceses me abriram um mundo novo e fui me interessando cada vez mais por ele.

A ponto de se tornar professor de história da alimentação...
Exatamente, mas foi uma grande coincidência. Após um ano estudando o assunto por conta própria, surgiu em São Paulo, em 1999, o primeiro curso superior de gastronomia do Brasil, na Universidade Anhembi Morumbi, e fui convidado para dar aulas. Sou o primeiro professor de História da Alimentação, tanto que fui chamado para dar aulas também na FMU-Faculdades Metropolitanas Unidas e no Senac de Águas de São Pedro e de Campos do Jordão. Eu criei essa disciplina no Brasil. Hoje me dedico apenas ao curso da Anhembi Morumbi, onde criamos o Centro de Pesquisas em Gastronomia Brasileira. Tenho ali um apoio institucional para a pesquisa que é uma beleza.

Quantos livros de gastronomia já escreveu?
Escrevo livros há muito tempo e a maioria é sobre história do Brasil. Na área da culinária, publiquei, em 2010, Árabes no Brasil, História e Sabor, e, no final do ano passado, lancei O Frango, História e Gastronomia. Escrevi também, em 2008, um capitulo do livro Churrasco: Uma Paixão Nacional, a convite do chef André Boccato. Daqui para diante vou publicar mais livros de gastronomia porque venho acumulando muito conhecimento nos últimos anos.

Já se pode falar em uma culinária brasileira?
Temos várias cozinhas regionais e uma culinária nacional em processo de constituição. Como se formaram as culinárias nacionais mais importantes, como a francesa ou a italiana? Sempre a partir da regional! Houve um momento, na segunda metade do século 19, em que a própria construção de um Estado liberal democrático e a noção de cidadania exigiram que todos os cidadãos fossem reconhecidos como iguais, como válidos, e, portanto, sua cultura também. É quando os compositores eruditos começam a transformar cançonetas populares em sinfonias e surgem artistas plásticos retratando o povo etc. A gastronomia também passou por esse processo, foram buscar as culinárias regionais para melhorar o cardápio dos grandes restaurantes de Paris e constituiu-se assim uma culinária francesa. Pouco mais tarde, aconteceu o mesmo na Itália, apesar das idiossincrasias regionais. Percebeu-se que, do ponto de vista econômico, era interessante constituir uma culinária nacional porque ela permitia uma associação com as políticas econômicas de Estado, de exportação e de importação. A renda da França com vinhos, manteigas e queijos é uma coisa fantástica. O Brasil está passando por essa fase agora.

Qual a razão do nosso atraso?
Devemos isso à Corte portuguesa, que veio para o Brasil e sufocou essa tendência normal de formação de uma cozinha nacional. Nossas culinárias regionais foram subjugadas pela culinária francesa que ela trouxe para cá. Não era só a rainha Carlota Joaquina que odiava a cozinha nacional. Todos aqueles 15 mil aristocratas vindos com a Família Real também não gostavam, só queriam saber da culinária francesa. Evidentemente, os fazendeiros brasileiros que almejavam a nobreza, e ganharam títulos de barão de não sei quê, imitavam a Corte. Não existe em nenhum arquivo histórico deste país um cardápio daquela época que não seja escrito em francês. Até a Primeira República, o menu das elites era francês.

Entre as diversas cozinhas regionais brasileiras, qual a sua preferida?
Uma das que mais prezo, até por regionalismo pessoal, é a mineirapaulista, que todos chamam apenas de mineira, porque foram os mineiros que fizeram o patrimônio dessa cozinha. Na verdade, foram os paulistas que levaram, na época do ouro, essa comida para lá e ela foi se desenvolvendo. Eu a considero uma culinária muito sofisticada. Só não é mais sofisticada do que a baiana. Refiro-me à cozinha baiana do Recôncavo, a de Salvador, não a da Bahia como um todo, que já é outra coisa. O vatapá é um prato chiquérrimo, elegantíssimo, sua técnica e a variedade de ingredientes são uma coisa incrível. Eu considero as duas melhores culinárias brasileiras.

Existe uma culinária paulista?
Culturalmente não. Porque a cultura paulista abandonou a sua história. É uma coisa característica de São Paulo e muito diferente de qualquer outro Estado. No Maranhão, no Rio Grande do Sul, em Pernambuco, todos têm orgulho da sua história, de seus heróis e da sua comida. Mas o paulista se esqueceu de sua história, ela virou uma bruma para o paulista médio. Na verdade, com a imigração houve um desvio de atenção muito grande em relação ao que existia antes, em termos de tradição. Sobretudo em relação à cozinha colonial. Acho ótimo que os italianos tenham trazido seu macarrão, os alemães suas salsichas e cervejas, isso tudo é muito bom, mas seguramente diluiu um pouco a importância do que havia antes. Além disso, há essa mística paulista de ir sempre para frente, em direção ao futuro. São Paulo é a cidade que mais cresce no mundo!

Como se para alcançar o futuro fosse necessário apagar o passado?
Exatamente. "Vamos logo derrubar essas mansões da avenida Paulista e fazer belíssimos edifícios!" Essa é a mentalidade, que também despreza a tradição culinária. Mas eu defendo a cozinha paulista do interior. Acrescentemos a ela a pizza e o macarrão... (risos)

Seria por isso que a cidade de São Paulo não tem restaurante especializado em cozinha paulista?
Só teve um e não foi pra frente. Chamava-se São Paulo I e ficava na entrada do shopping Eldorado. Muito bom por sinal, mas não pegou. Ninguém assume essa vanguarda. É uma culinária que pode ser muito bem feita, essa comida interiorana, boa, que hoje se encontra mais no Vale do Paraíba e no oeste do Estado.

Que produto brasileiro pode ter projeção internacional?
Um que já tem, e que pode ser muito bom quando bem feito, é a feijoada. Ela realmente já é internacional, já tem esse prestígio, isso é indiscutível. Mas já estão começando a aparecer os produtos que irão constituir a culinária nacional, pratos que estão saindo de suas regiões e que começam a ser feitos em outros Estados. É o caso do churrasco, que era gaúcho e agora é nacional. O mesmo já acontece com o acarajé, que é baiano, mas aqui em São Paulo já tem em vários lugares. O virado à paulista está começando a ser feito em outros Estados, porque é muito prático, ideal para um almoço executivo; não é comida de fim de semana, é para o meio da semana. O pessoal também está aprendendo a fazer o frango com quiabo mineiro. Engraçado que não existia esse prato na Bahia, que é um lugar que tem bastante quiabo, mas agora perceberam que é bom.

O frango com quiabo mineiro tem chance de virar um prato nacional?
Ah, não tenho dúvida. Assim como o vatapá está virando. Eu até incluí a receita de vatapá de frango em meu livro e, no dia do lançamento, o servimos na forma de finger food durante o coquetel.

O que faz um prato regional entrar para o cardápio nacional?
Quando os restaurantes servem comidas de outras regiões e esses pratos começam a se reproduzir, é a aí que a culinária se constitui. Foi o que aconteceu com a carne seca. Antes era um produto típico do Nordeste e do Rio Grande do Sul. Agora é um prato comum em São Paulo, onde até canapés de carne seca são servidos em coquetéis. Então eu acho que é um produto que já está entrando nessa pauta da culinária nacional. Veja o caso da casquinha de siri. Ela é cultivada há mais tempo no Nordeste, mas em todo lugar tem siri. Hoje é consumida no Brasil inteiro. Sabe onde eu comi a melhor casquinha de siri da minha vida? Em Porto Alegre! Tem muito lá na Lagoa dos Patos, uma lagoa salobra, que é a melhor coisa para caranguejo e siri.

Adaptações em receitas tradicionais fazem parte do processo de constituição de uma culinária?
Existe uma corrente de chefs mais ortodoxa que prega: "Nós temos que resgatar a maneira como a Dona Fifinha, do Sertão do Ceará, fazia o seu jabá." A Mara Salles é um exemplo disso, embora ela modifique e aperfeiçoe as receitas, para que a comida se torne mais apresentável do ponto de vista estético e comercial, mas ela preza muito a maneira original, tradicional. Agora existem outros que também pesquisam a cozinha brasileira, mas que se propõem a torná-la factível. Talvez a maneira como a Dona Fifinha preparava o seu jabá seja muito difícil, porque você não tem fogão a lenha e outros itens necessários para isso. Então a reinvenção é mais comum. Às vezes acontece naturalmente porque a pessoa vem lá do Ceará, chega aqui e não tem as mesmas panelas, os mesmos ingredientes, então ela inventa. Além disso, o brasileiro é muito versátil, tanto que prepara com facilidade as coisas estrangeiras. Quem não sabe fazer quibe, esfirra, estrogonofe, pizza, todas essas coisas que os imigrantes trouxeram? Nós temos muito disso, incorporamos muito fácil. Assim, fazer a reinvenção dos pratos originais é moleza...

A reinvenção faz parte de qualquer gastronomia?
É complicado responder isso porque alguns lugares são muito tradicionalistas. Imagino que se alguém chegar para um alemão da Prússia e fizer diferente o chucrute com linguiça, o sujeito vai ficar muito bravo. As culinárias mais ricas e tradicionais não têm essa preocupação como nós temos, a de reinventar. Os chineses, por exemplo, têm pratos típicos que vão desde as montanhas geladas do norte aos pântanos tropicais do sul, quer dizer, têm de tudo. Essa imensa variedade permite a eles manter as tradições. Não precisam reinventar na medida em que têm sempre alguma outra opção. Entretanto, acredito que a reinvenção é um dado fundamental para que as cozinhas se tornem melhores. A cozinha inglesa do século 19 definiuse a partir de um padrão ruim e foi um processo consciente. Existe um livro de grande sucesso na época, chamado Uma Cozinha Econômica Para as Classes Trabalhadoras, que retrata isso. Eu tenho esse livro em casa e as receitas são uma porcaria (risos). Para se fazer uma cozinha mais econômica, tudo ali foi reduzido. A culinária moderna inglesa melhorou muito, mas antes tiveram 200 anos dessa coisa.

Qual é a sua culinária internacional preferida?
São duas, a chinesa e a francesa. A primeira tem uma grande habilidade no uso de vegetais junto com as carnes. Essa noção yin-yang que eles têm começou no século 4 a.C. É a sabedoria do equilíbrio, dos princípios ativos da vida, então qualquer região chinesa tem pratos muito equilibrados. Quando existe uma tendência muito yang, uma carne de porco temperada, por exemplo, é contrabalançada com legumes bem leves, mais yin. O tempo todo eles fazem esse equilíbrio. Outra coisa é a maneira como eles preparam os peixes, sempre valorizando o ingrediente sem excesso de temperos. Puxa, eles fazem isso há 3 mil anos, prezam a pureza, o sabor original dos alimentos, uma coisa que a Nouvelle Cuisine francesa adotou só nas últimas décadas. Os chineses não põem sal no peixe, apenas um pouco de shoyu na hora de comer. Eles têm pequenas maravilhas tradicionais, como o camarão ao gengibre. Deus, é uma coisa tão boa! Não sei por que os restaurantes chineses daqui não fazem.

O que destacaria da culinária francesa?
De imediato, sem muito esforço, o uso privilegiado de aspargos é uma coisa impressionar. Eu me lembro de quando comi na casa de um dos historiadores que conheci no congresso de Paris. A entrada tinha uns aspargos que eram uma coisa de louco, com seis molhos diferentes. Foi inesquecível. Além disso, gosto muito da maneira que os franceses fazem os assados. Para cada tipo eles têm um preparo diferente. O churrasco francês também é muito bom, compete com o gaúcho. E gosto dessa coisa interminável, que é a quantidade de saladas que eles fazem.

Os brasileiros já se envergonham menos da culinária brasileira?
Por enquanto, só uma elite mais bem informada, que está começando a ter uma visão positiva da culinária brasileira graças a esse movimento de renovação que começou há algumas décadas. Mas, do ponto de vista do público médio, a melhor cozinha ainda é a estrangeira. Isso é uma luta, um trabalho de divulgação que demora. Todo hábito culinário demora a se estabelecer tanto quanto demora a desaparecer. A única coisa que desapareceu depressa foi o coquetel de camarão (risos).

Gastronomia é coisa de elite?
Essa ideia surgiu na imprensa brasileira. Os antigos críticos eram acima de tudo homens simpáticos, que iam aos restaurantes mais caros e sofisticados, os donos serviam suas melhores iguarias e eles escreviam a respeito. Penso que a palavra "gastronomia" ficou restrita a esse mundinho, como sinônimo de restaurante chique, então o leitor também passou a achar isso. Na verdade, o uso tradicional do termo gastronomia se refere à comida como um todo, de todas as classes, de todo o mundo. Esse era o sentido da palavra para Jean Anthelme Brillat-Savarin, como também para os outros que escreveram a respeito no século 19. Gastronomia é uma coisa muito mais ampla. Aqui a palavra se desviou do sentido original. Com as escolas de gastronomia pudemos consertar esse desvio e voltar a chamar de gastronomia tudo o que diz respeito ao homem quando ele come, que é a definição de Brillat-Savarin.

Em que medida a culinária árabe influenciou a brasileira?
Há duas influências diferentes: uma que é milenar, que vem de quando os árabes entraram na Península Ibérica. Eles tinham uma grande capacidade de absorção dos melhores costumes dos lugares por onde passavam e dominavam. Então de uma culinária basicamente simples, de homens do deserto, eles incorporaram a riquíssima culinária persa, logo no início da expansão muçulmana, depois as culinárias do Egito e do norte da África, e chegaram à Península Ibérica com esse cabedal. Encontraram lá uma culinária que já tinha sofrido a influência dos romanos, daquelas comidas bem temperadas, perfumadas, todas essas coisas que o português passou a gostar. E os portugueses nos trouxeram isso. Então é uma influência árabe antiga que vem via Portugal. Além dessa, tem a influência do imigrante árabe, no final do século 19, que é essa do quibe e da esfirra.

Em que região do Brasil essa influência foi maior?
No Brasil inteiro. Na Bahia, por exemplo, tem muito árabe e uma influência bastante presente. O árabe tinha muita facilidade de comunicação, até por ser um bom comerciante. Eu tenho uma experiência pessoal: minha mãe era vizinha de uma mulher árabe e surgiu aquela coisa de conversar por cima do muro do quintal. Em pouquíssimo tempo, minha mãe aprendeu muitas coisas da deliciosa cozinha árabe. Além do quibe e da esfirra, aprendeu a fazer charuto de folha de uva ou de repolho, kafta, homus... Na verdade se o japonês fosse menos tímido, todo mundo aprenderia a fazer sushi (risos).

Seu novo livro é um tratado sobre o frango, um alimento que está na mesa de todas as classes sociais...
Quando a gente se preocupa com alimentação, todos os extratos são importantes. Existe a necessidade política e cultural de se falar da comida cotidiana. Devemos lutar para que o homem comum coma sempre o melhor possível todos os dias. Isso é uma meta inexorável de um bom gastrônomo, de alguém que trabalha com gastronomia, de alguém que dá aula sobre isso. Eu quero que todo brasileiro coma muito bem todos os dias. Então é essa a proposta de O Frango, História e Gastronomia. Primeiro mostro que é algo realmente milenar, universal, o que é interessante, porque a maior parte das pessoas não sabe disso e nem que essa ave descende do dinossauro. Além disso, incluí uma série de receitas muito tradicionais em suas regiões e que muitas vezes as pessoas não sabem fazer e são ótimas. No Brasil se faz mil tipos de frango, mas agora vamos fazer 2 mil (risos)! Eu e o chef Paulo Machado, que executou os pratos, refugiamo-nos em uma fazenda e fizemos 35 tipos de frangos, para testar as receitas.

O frango chegou aqui com os portugueses, não?
É o único contato cultural de um alimento que tem data exata, que é o dia 28 de abril de 1500, quando Cabral mostra a galinha para os índios e eles levam o maior susto (risos). Embora os índios não comessem galinha até recentemente, eles usavam os ovos. Mas agora já existem várias receitas indígenas com frango. Uma delas está lá no livro, feita pelas crianças indígenas do Alto Rio Negro. É um frango grelhado com batata doce, abóbora e mandioca cozida. Uma delícia!

E a culinária japonesa já deu sua contribuição ou apenas convive com a culinária brasileira?
Acredito que é apenas uma convivência de restaurantes. Não vejo brasileiros fazendo comida japonesa em casa. Já poderiam fazer, mas isso não acontece. Não conheço ninguém que faça sushi em casa. O que eu tenho visto, no máximo, é alguém jogar legumes no macarrão e dizer que está fazendo yakisoba (risos). Então acho que a influência se limita aos restaurantes, tanto que já tem mais restaurante japonês do que italiano.

São Paulo continua a ser a capital gastronômica do Brasil?
Sem dúvida, porque tudo rebate aqui. Quem procura encontra em São Paulo tudo o que se come no Brasil. Só não encontrei até hoje onde se come babaçu e, naturalmente, os peixes da Amazônia. Aliás, os peixes de rio desapareceram de São Paulo. Os paulistas acabaram com os rios, não é? No entanto, no século 19, era rotina popular comer peixe. Existe até uma charge do caricaturista Angelo Agostini, em uma revista de mil oitocentos e pouco, que tira um sarro dos paulistanos falando que em São Paulo a única coisa que tinha para comer era lambari com chuchu. Mas o peixe de água doce sumiu da dieta dos paulistanos. Desde os anos 40, todos os rios piscosos foram desaparecendo.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Os ataques à Comissão Nacional da Verdade


Está claro que os inimigos do povo se utilizarão de todos os métodos para inviabilizar a comissão

Brasil de Fato - Editorial -  07/03/2012
 

A mais recente movimentação de setores militares da reserva objetivando impedir o conhecimento público e a investigação de fatos ocorridos principalmente entre 1964 e 1988 expressa o que há de mais atrasado e retrógrado. É mais um ataque, dos vários que estão por vir, à Comissão Nacional da Verdade. O pacote reacionário que se apresentou no nefasto manifesto “Alerta à nação – eles que venham por aqui não passarão”, além buscar neutralizar ou acabar com a Comissão da Verdade, também tenta deslegitimar instituições democráticas e pessoas que se dedicam à luta pelos direitos humanos.      

Toda sociedade humana tem direito à memória. Portanto, esse é um ataque à sociedade brasileira e ao seu direito de registrar sua própria história. O tal manifesto com seu tom ameaçador, intimidador e golpista é típico dos piores inimigos da humanidade. Esses senhores se acham no direito de sufocar a memória histórica do povo brasileiro que é carregada de heroísmo e lutas sociais.    

Toda sociedade humana tem direito à verdade. Os signatários desse manifesto são justamente aqueles que cometeram perseguições, torturas e assassinatos durante a ditadura civil-militar, entre o período de 1964 e 1988. São os mesmos que não querem permitir que esses crimes sejam de conhecimento público, investigados e punidos. A sociedade e as famílias dos brasileiros e brasileiras que foram vítimas da repressão dos militares têm direito à verdade. Ou seja, quem ordenava os assassinatos e perseguições? Quem eram os torturadores? Onde estão os corpos dos desaparecidos políticos?     

Mesmo tendo sido um manifesto de militares da reserva, ele expressa o caráter reacionário, conservador e autoritário da classe dominante brasileira. Os ataques dos milicos não pouparam nem mesmo o ministro da Defesa Celso Amorim que prontamente desvinculou o manifesto de qualquer iniciativa das forças armadas brasileiras. Os milicos não suportam e não aceitam o compromisso com a verdade e com os direitos humanos externado pela ministra da Secretaria de Direitos Humanos Maria do Rosário e pela ministra da Secretaria de Políticas Públicas para Mulheres Eleonora Menicucci.           

Sabemos que a reação de setores militares e civis incidiu no processo de formulação da Comissão Nacional da Verdade para que no final das contas predomine a impunidade. Está claro que os inimigos do povo se utilizarão de todos os métodos para inviabilizar a comissão. Isso significa que o aprofundamento das investigações e principalmente o elemento da justiça só ocorrerá se a sociedade se mobilizar.        

Toda sociedade humana tem direito à justiça. Algumas das perguntas que fazemos relacionadas aos crimes da ditadura militar já têm respostas, outras estão em documentos sob rígido controle das forças armadas. Saber a verdade dos fatos desse período nos proporciona as bases para lutarmos por justiça. É necessário saber a verdade, mas também é necessário punir os criminosos. Nesse sentido, nunca é demais lembrar que países como Argentina e outros da América do Sul têm avançado bastante no direito à verdade e à justiça, investigando e punindo os crimes dos militares. A Organização dos Estados Americanos (OEA) não se cansa nos seus relatórios de ressaltar e criticar o atraso brasileiro na prestação de contas com os crimes desse período histórico.       

Por isso é fundamental ficarmos atentos às movimentações públicas e subterrâneas desses senhores que não têm nenhum compromisso com o povo brasileiro. Faz-se necessário nesse momento nos organizarmos para defender o direito à memória, à verdade e à justiça. Ou seja, temos que enraizar e popularizar esse desafio da luta pela verdade e justiça junto ao povo brasileiro. Somente assim teremos capacidade de isolar os setores reacionários da sociedade brasileira e abrir espaço para que a verdade se encontre com a justiça. Isso significa que devemos sair na defesa da Comissão Nacional da Verdade e nos mobilizarmos para que ela tenha plenas condições para realizar seus trabalhos. Não podemos permitir que o impasse tome conta da Comissão da Verdade.      

Mesmo com todos os esforços dos setores conservadores para não sabermos a verdade dos fatos e para que não haja punição aos crimes cometidos pelos militares, existe um elemento sobre o qual a classe dominante brasileira não tem controle: a memória coletiva do povo brasileiro. No conteúdo da memória coletiva do povo brasileiro encontramos seu protagonismo em diversas lutas sociais, seu compromisso com a verdade e a justiça e as bases para a construção de um Projeto Popular para o Brasil. A memória coletiva do povo brasileiro mais cedo ou mais tarde despertará.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Entrevista especial com Lúcio Flávio Pinto

''No Pará não apenas o grileiro consegue se apropriar das terras públicas, como ainda se precisa indenizá-lo quando se denuncia''.

Vítima de um processo de indenização por dano moral, movida por empresário já falecido, o jornalista afirma que a grilagem de terras no Brasil se intensifica todas as vezes que há alguma incerteza econômica.

Confira a entrevista - Instituto Humanitas Unisinos.


Imagine a cena. Você é jornalista e decide usar seu trabalho para denunciar um empresário que se considerou dono de uma terra pertencente ao patrimônio público. O fato é comprovado judicialmente. No entanto, o empresário usa o poder financeiro para deixar claro que não gostou de uma expressão utilizada em sua denúncia. Você é processado por danos morais ao tentar esclarecer a opinião pública e defender o patrimônio nacional. E o pior: você é condenado pela justiça a indenizar o grileiro ofendido. Resumidamente, este é o caso real do jornalista Lúcio Flávio Pinto, que concedeu a entrevista a seguir, por telefone, para a IHU On-Line, relatando detalhes do processo do qual é vítima.

Durante um longo percurso, ele afirma que só perdeu para a justiça. “Desde 1992 venho sofrendo processos por pessoas que não têm a mínima preocupação em esclarecer o público, que não exercem o direito de resposta e que encontraram no poder judiciário um cúmplice, para me impedirem de continuar a exercer o jornalismo, o que eu faço há 46 anos. Então, era o limite. E resolvi não recorrer dessa decisão”, desabafa, ao assumir o que tem pela frente. “Estou perfeitamente consciente: vou pagar o preço por tentar mobilizar a sociedade, por tentar fazer com que ela perceba que não é um problema individual, mas um problema social grave o que eu estou enfrentando”. Afinal, resume, “no Pará não apenas o grileiro consegue se apropriar das terras públicas, como ainda se precisa indenizá-lo quando se denuncia”. E o jornalista enfatiza: “o Tribunal se transformou em um lugar onde os criminosos estão conseguindo ganhar. Ninguém provou que o que eu disse era mentira, mas eu sou condenado. Não me deixam o direito de provar”. Ao final da entrevista, ao ser questionado se gostaria de acrescentar mais algum comentário ao debate, Lúcio Flávio exclamou: “socorro”. Foi uma brincadeira, mas que reflete o sentimento deste cidadão brasileiro.

Jornalista profissional desde 1966, atualmente Lúcio Flávio (foto) dedica-se ao Jornal Pessoal, informativo quinzenal que escreve sozinho há mais de 20 anos baseado em Belém. No jornalismo, recebeu quatro prêmios Esso e dois Fenaj, da Federação Nacional dos Jornalistas, que em 1988 considerou o Jornal Pessoal a melhor publicação do Norte e Nordeste do país. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace. Em 2005 recebeu o prêmio anual do Comittee for Jornalists Protection – CPJ, de Nova Iorque, pelas denúncias que tem feito em seu jornal na defesa da Amazônia e dos direitos humanos. Tem 12 livros publicados, todos sobre a Amazônia, dentre os quais: Hidrelétricas na Amazônia, Internacionalização da Amazônia, CVRD: a sigla do enclave na Amazônia, Guerra amazônica, Jornalismo na linha de tiro e Contra o poder. É sociólogo, formado pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

Confira a entrevista.

Pode explicar brevemente o caso da grilagem de terras e do processo movido pela Construtora C.R. Almeida contra você?
Em 1995, Cecílio do Rego Almeida adquiriu o controle acionário de uma empresa de Altamira, chamada Incenxil. Com essa compra, vieram vários papéis, que eram registros e que estavam no cartório, embora não tivessem o título para que essas terras passassem do domínio do estado para o domínio particular. Com esse controle ele se considerou dono de uma área em que apenas uma das fazendas somaria quatro milhões e 700 mil hectares. Um ano depois, em 1996, o Instituto de Terras do Pará – Iiterpa entrou com uma ação de cancelamento e anulação desses registros, por serem fraudulentos. A ação foi recebida pelo então juiz de Altamira, onde hoje está sendo construída a hidrelétrica de Belo Monte, e a empresa recorreu para o Tribunal. O primeiro a dar uma sentença favorável foi o desembargador João Alberto Paiva, que restabeleceu a plenitude do registro que havia sido cancelado pelo juiz local da comarca. Em seguida, o estado também apelou, entrando com interdito proibitório para impedir que qualquer pessoa entrasse nessa vastidão, que caso se constituísse um estado, seria o vigésimo primeiro maior estado do Brasil. A desembargadora Maria do Céu Cabral Duarte concedeu o interdito proibitório antes mesmo de receber o pedido. Todas essas irregularidades eu fui denunciando, porque também sou muito amigo do que era então diretor do departamento jurídico do Iterpa. E nós preparamos, juntos, uma ação para cancelar esses registros. Cecílio ficou extremamente irritado com a minha participação e com os meus artigos. E entrou na comarca de São Paulo com uma ação de indenização por dano moral, porque se considerou ofendido pelo uso da expressão “pirata fundiário”. Essa ação foi deslocada de São Paulo para Belém, porque o local certo é Belém. Mas o juiz de São Paulo que recebeu também uma ação parecida contra um repórter da revista Veja, movida por um vereador de Altamira, não aceitou a ação. E não apenas inocentou os réus, como também os elogiou, dizendo que estavam defendendo o patrimônio público.

 Eu fui o único condenado, em 2006, por um juiz que não era o titular da vara onde estava o processo. Ele ocupou essa vara por apenas um dia e devolveu o processo quando a titular já havia retomado o controle da vara. Ele não podia mais decidir. E para que a sentença dele tivesse validade, assinou com data retroativa de quatro dias anteriores. Eu fui condenado a pagar oito mil reais de indenização, retroativas a 1999, quando saiu meu artigo no Jornal Pessoal, que é um quinzenário que mantenho aqui, que com os juros e correção monetária, daria hoje 20 mil reais. Eu recorri, mas o Tribunal negou vários recursos, inclusive quando o autor da ação (Cecílio do Rego Almeida) morreu, em maio de 2008. Foi mantida a sentença. Durante esse longo percurso de 11 anos, eu só perdi e várias arbitrariedades foram cometidas. Quando o processo finalmente subiu para Brasília, foi descoberto um erro formal, que fez com que o presidente do Superior Tribunal de Justiça não aceitasse o recurso. Nesse momento, achei que já era demais, porque desde 1992 venho sofrendo processos por pessoas que não tem a mínima preocupação em esclarecer o público, que não exercem o direito de resposta, e que encontraram no poder Judiciário um cúmplice, para me impedirem de continuar a exercer o jornalismo, o que eu faço há 46 anos.

Então, era o limite. E resolvi não recorrer dessa decisão. Abri uma subscrição pública para as pessoas que quisessem contribuir para indenizarmos o grileiro. Espero agora que o processo venha com a execução da sentença. E no dia em que for para pagar, vou comparecer e vou convidar todas as pessoas que participaram dessa subscrição para irmos fazer um ato simbólico no Tribunal, que é entregar o dinheiro e mostrar que no Pará não apenas o grileiro consegue se apropriar das terras públicas, como ainda se precisa indenizá-lo quando se denuncia.

Quem denuncia é punido
A revolta foi ainda maior porque, em novembro do ano passado, a Justiça Federal de primeiro grau aceitou uma ação do Ministério Público Federal e mandou cancelar os registros do Cecílio do Rego Almeida, porque eram indevidos. Ou seja, reconheceu que realmente ele fez uma grilagem. Então, para a Justiça Federal trata-se de uma grilagem. Para a justiça de São Paulo, quem denunciou não apenas não deve ser processado, como deve ser elogiado, porque defendeu o patrimônio público da apropriação ilícita. E para o Tribunal de Justiça do Pará, que tem a jurisdição sobre o segundo maior estado da federação, quem denuncia é punido e as maiores arbitrariedades são cometidas, porque não apenas o tribunal favorece o grileiro, mas também quer se livrar de um crítico incômodo. Todos esses anos em que estou sendo processado na justiça, desde setembro de 1992, em 33 processos, tenho sido vítima de uma perseguição da justiça do Pará. Eu sou talvez o único jornal, embora pequenino, que mostra todos os erros do tribunal. E não é só contra mim que o tribunal faz isso. É que a justiça do Pará é muito ruim.

O que lhe motivou a desistir de recorrer à justiça neste processo? Qual o significado político deste gesto?

É justamente mostrar que eu estou em um julgamento político. A lei foi deixada de lado, a verdade foi deixada de lado, meus argumentos não foram considerados, as provas dos autos foram ignoradas para me punir, para me calar, para me intimidar. Meu Jornal Pessoal tem 25 anos e ele é sempre crítico, nunca foi desmentido, porque sempre tive essa cautela de só escrever sobre aquilo que posso provar em qualquer estância, administrativa ou judicial.

A maneira que eles encontraram foi criar um processo político, em que não interessa o que eu estou dizendo, mas que tenho que ser condenado. Já que eles agiram politicamente, eu resolvi reagir politicamente. Mostrar que eles querem que se pague para um grileiro que está se apropriando de uma área no Pará do tamanho da Bélgica, onde moram 10 milhões de pessoas. Então, vamos pagar.

Agora, o culpado é o Tribunal de Justiça do Pará. Tem gente boa lá? Tem. Tem gente competente? Tem. Mas que não tem nenhum acesso ao poder, que não modificam as decisões. O Tribunal se transformou em um lugar onde os criminosos estão conseguindo ganhar. Ninguém provou que o que eu disse era mentira, mas eu sou condenado. Não me deixam o direito de provar. Então, eu quis fazer uma denúncia aproveitando uma arbitrariedade do Tribunal para que a opinião pública não só saiba, como também participe, porque quem doou dinheiro para pagar a indenização está aceitando pagar o sujeito que só não foi para a prisão porque completou 70 anos e a prescrição da pena que cabia a ele já estava prescrita pela idade dele. Se não fosse isso, ele teria uma ordem de prisão da justiça federal. E para a justiça do estado, ele tem razão. As pessoas estão contribuindo e espero que logo adiante se alcance essa estimativa no valor da indenização. Nestes próximos dias estou lançando um livro contando todos os fatos e citando os nomes de todas as pessoas que participaram disso que eu chamo de um "gulag tropical".

O que esse episódio evidencia sobre a situação da grilagem de terras no país? O que está em jogo nessa questão?

Em primeiro lugar, mostra que tem que se apoiar no CNJ para aumentar o controle externo do poder Judiciário, que é, dos três poderes constitucionais, o que está menos visível e o que está mais refratário ao controle da sociedade. Em segundo lugar, a grilagem se intensifica todas as vezes que há alguma incerteza econômica. Então, as pessoas que têm dinheiro procuram, comprando terras, criar uma reserva de valor contra as ameaças reais, possíveis ou imaginárias, da economia. As terras, pelo seu baixo valor e pelo conceito errado do uso dos recursos naturais da Amazônia (que torna a terra mais importante do que a floresta), se tornam uma reserva de valor certa para os especuladores. Por isso, em momentos de crise, a grilagem e o desmatamento crescem, porque a Amazônia é uma reserva do país, sobretudo dos grupos poderosos que têm dinheiro para investir e manter grandes áreas como instrumentos de especulação imobiliária e financeira. Então, o que precisa ser feito é moralizar o registro de terras que até hoje, apesar dos avanços tecnológicos, continua precário. Os cartórios, por exemplo, fazem o que querem.

Se as terras em questão pertenciam ao patrimônio público, porque o dono da Construtora C.R. Almeida se disse ofendido por ser chamado de “pirata fundiário”? Ou seja, chamar grileiro de grileiro é crime? 

 
Ele está na lógica dele. Ele quer um pretexto para me intimidar, para me calar, já que comprar, ele não podia. Então, ele inventou essa história. Não deu certo em São Paulo, mas deu certo em Belém. Então, ele tentou e se deu bem. As conexões mostram que foi uma conspiração real e que o objetivo dele era de que não interessasse o que eu estava dizendo, eu seria condenado. E para isso ele usou do seu poder. E não é só um poder que veio do fato de ele ter 1,90m de altura, ou por ele ser um sujeito agressivo, mas é o poder do dinheiro. A fortuna do grupo C.R. Almeida hoje está calculada em 5 bilhões de dólares.



Como você se sente, pessoalmente, como cidadão e jornalista brasileiro, diante do episódio?






Quando eu vi a decisão do STJ, fiquei perplexo, desanimado, com vontade de ir embora do Brasil, porque mesmo em uma democracia houve o abuso do poder econômico. Mas depois decidi reagir e de uma forma que eles não esperavam, pois acharam que eu ia continuar preso ao processo. Resolvi ultrapassá-lo, sabendo dos riscos de perder a primariedade e de pagar a indenização. Então, estou perfeitamente consciente: vou pagar o preço por tentar mobilizar a sociedade, por tentar fazer com que ela perceba que não é um problema individual, mas um problema social grave o que eu estou enfrentando.

Como está a situação atual de Belo Monte e do rio Xingu? Quais os desafios atuais a serem enfrentados na região diante da construção da hidrelétrica?

Eles estão fazendo a mesma coisa que foi feita em Jirau, no rio Madeira: estão criando fatos consumados. Até a multa que o Ibama aplicou à Norte Energia, ao consórcio que está construído, nos faz pensar se é para valer ou se é como um “banho de piranha”, para desviar a atenção, porque a multa é excessiva, não se justifica ao delito que eles cometeram, que é simples. O governo está sendo rigoroso e o resultado concreto disso é que os fatos vão avançando. Hoje já é difícil colocar em questão se Belo Monte será construída ou não. Parece que agora vai mesmo ser construída. No entanto, o que se pode fazer para atenuar os problemas? Acho que essa é uma questão que ainda ninguém examinou com rigor, porque não se tem uma visão completa da situação. Talvez esta seja a linha de transmissão mais cara da história do Brasil.

Vai representar uns 60% do custo da obra de geração. Então, o grande desafio para Belo Monte não é construir, pois eles vão construir de qualquer maneira, mas é o dia seguinte. Quanto irá custar? Qual será o prejuízo? Qual será o subsídio? O governo do PT sempre foi contra a privatização, sempre acusou o PSDB de colocar o Estado a serviço dos interesses particulares. No entanto, a atual grande marca do governo do PT são as grandes obras, que continuaram desde o regime militar sem mudar nada, incluindo o dinheiro do BNDES e o tesouro nacional. As hidrelétricas anteriores não tinham esse esquema. Então, o caminho será o de questionar quem vai pagar essa conta e de quanto será, para atender ao desejo impulsivo e compulsivo de construir Belo Monte.