quarta-feira, 22 de julho de 2009
Lúcio Flávio Pinto: a voz castigada da Amazônia
Na semana passada ele foi condenado numa das quatro ações movidas pelos donos do grupo O Liberal, do Pará. Condenado, não pode sair do estado para participar do 4º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, onde seria homenageado. O texto abaixo é um extrato do que foi lido por seu filho na abertura do evento. Quem quiser ler o texto todo, pode acessar o site da Adital (Agência de Informação Frei Tito para América Latina)
"...
Sei que o que vi e sobre o que escrevi é a própria história em processo, uma história como poucas houve e, espero, poucas voltarão a se repetir, com suas cores dramáticas e infamantes. Com os olhos de um adolescente de 16 anos, vi cientistas de todo mundo reunidos em Belém, no centenário da mais antiga instituição de pesquisa regional, o Museu Paraense Emílio Goeldi. Percebi então que a Amazônia á uma questão planetária, que, para o bem e para o mal, não pode ser tirada desse âmbito mais amplo. Aos 18 anos, fiz a primeira viagem à Serra dos Carajás, que se constituiria a maior província mineral do mundo.
Aprendi que a riqueza do subsolo da Amazônia lhe impõe este como o primeiro desafio de inserção global. Conheci muitos bravos personagens da história amazônica que perderam seu papel nesse drama por terem sido assassinados, como Chico Mendes, Gringo e centenas de cidadãos esmagados pelo trator da história oficial. Fui testemunha, às vezes solitária, de acontecimentos únicos, como o ingresso, no rio Jari, da fábrica e da termelétrica trazidas do Japão pelo milionário americano Daniel Ludwig, com quem tercei armas. Fui alvo de ameaças e vítima de agressões. Aos poucos, minha indignação foi crescendo e meu desejo de intervir nessa realidade extrapolou limitações. Não só escrevia, em todos os lugares que se me oferecessem. Também bradava aos quatro ventos, num circuito de palestras dentro e fora do Brasil que se expandiu em espirais.
Tanto escrevi e tanto disse que meu texto se tornou lido e minha voz, ouvida. Passei a incomodar, acho que em especial porque a força da minha indignação não alterou o meu compromisso com a verdade, no desempenho técnico da minha função de reportador dos fatos, escrivão do cotidiano. Era tão incômodo ouvir o que eu dizia quanto difícil desmentir o que eu divulgava. Cometi o pecado mortal de incomodar os manipuladores da verdade e os donos do poder. Não por mera coincidência, em plena democracia, me tornei um dos jornalistas mais processados e condenados, principalmente por outros cidadãos que alegam intimidade com o jornalismo, já que possuem empresa jornalística. Com o toque sugestivamente kafkiano de que, queixando-se de serem vítimas de minhas inverdades, não utilizam seu enorme poder de comunicação para contrapor a elas suas verdades, em debate público. Pelo contrário, fazem da técnica do silêncio, combinada com a utilização do maleável poder judiciário, enquanto força pretoriana a serviço dos seus objetivos e caprichos, o instrumento para me esmagar e destruir."
terça-feira, 21 de julho de 2009
E ele gritou
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Será que a Conferência de Comunicação vai virar pizza?
No começo de dezembro deste ano acontece a Conferência Nacional de Comunicação, chamada pelo governo federal. Até agora, o governo Lula já realizou inúmeras conferências, mas esta promete ser a mais custosa, politicamente falando, tanto para o governo como para o movimento social.
Em nenhuma das conferências o empresariado esteve tão organizado como os proprietários dos jornais e revistas, TV, rádio, e, agora, junte-se a eles os representantes das teles que querem entrar no ramo das TVs digitais.
Mas a voz corrente entre os que participam da organização da Confecom é a de que ninguém deve esperar milagres, ou seja, democratização do acesso aos meios de comunicação, regulamentação das concessões de rádio e TV, controle público etc.
De qualquer forma, é uma conferência que está mobilizando gente de todo o país, das mais diversas áreas: sindicatos, universidades, ONGs, igreja e muito mais gente. Só por isso já está valendo.
No mais, o que esperar da conferência, quando o Ministério das Comunicações é comandado pelo Hélio Costa?
Mas estudiosos como Venício Lima, da UnB, acham que o país deve aproveitar o momento de preparação da conferência para que sejam debatidos temas como a questão da propriedade dos meios de comunicação, hoje concentradas nas mãos de algumas poucas famílias, e também o uso das concessões públicas, que hoje são comercializadas como bem privado.
Outro ponto que Venício Lima aponta: é preciso denunciar os desmandos cometidos pela mídia: distorções da realidade, parcialidade nas reportagens, omissões etc.
O Venício, por sinal, parece um paladino que vai de canto em canto do país falando sobre isso e alertando os movimentos sociais pra não perderem esse momento tão importante.
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Pra quem gosta de jornalismo e literatura
Outro jornalista que envereda pela literatura é o Lucas Figueiredo, que participa do Sempre um papo no SESC Vila Mariana (Rua Pelotas, 141, de graça) no dia 30/07, quinta-feira, às 20h00. Ele vai falar sobre o último livro Olho por Olho: os Livros Secretos da Ditadura (ele é autor de Ministério do Silêncio e Morcegos Negros, ambos sobre a história recente do Brasil).
Do material de divulgação do “Sempre Um Papo” sobre o último livro do Lucas: De acordo com o autor, a guerra entre os defensores e os opositores da ditadura militar no Brasil (1964 a 1985) foi longa e suja. O que durante duas décadas não se soube é que o confronto derradeiro mobilizou menos de 40 combatentes de cada lado, foi silencioso — quase invisível — e durou 28 anos: de 1979 a 2007. Um conflito que extrapolou, assim, o próprio período da ditadura. A última batalha dessa guerra foi travada por dois livros. “Brasil: nunca mais” — a “bíblia” sobre a tortura praticada pelas Forças Armadas — e o menos conhecido “Orvil”, a resposta do Exército, sobre a guerrilha e o terrorismo de esquerda. Os bastidores dessa batalha, com detalhes de cortar o fôlego, estão reunidos no livro “Olho por Olho: os Livros Secretos da Ditadura”. Na obra, Figueiredo — com três Prêmios Esso de Jornalismo no currículo — revela toda a tensão dos seis anos de trabalho sigiloso do “Brasil: nunca mais”.
terça-feira, 14 de julho de 2009
A pintura da discórdia
Tudo que sei é que a igrejinha é linda, os azulejos de Athos Bulcão maravilhosos.
E por falar em Athos, vi este cartaz que a Cãmara dos Deputados fez quando o homenageou pelos 90 anos. Lindo.
O açougue cultural T-Bone
Numa parada de ônibus
E o que começou com uma pequena biblioteca comunitária, virou espaço cultural, com direito a apresentações literárias, saraus etc. Ótimo exemplo a ser seguido.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Programa "O Guia", do Josimar Melo estréia dia 12
Serão 13 programas feitos para o Canal National Geographic em oito países da Europa e da América Latina (só três no Brasil), nos quais o Josimar vai mostrar comidas, temperos, histórias e costumes características dos lugares. Começa em Paris e daí segue. Em cada lugar, o programa tem um roteiro diferente, ligado a algum aspecto do lugar (Espanha, com Dom Quixote, Inglaterra, com James Bond etc.). Diz o site do NatGeo (a foto também é deles), que ele não vai pra cozinha, mas vai mostrar o que se faz em cada lugar.Por onde ele andou: Paris e Normandia (França); Londres; La Mancha e Salamanca (Espanha); Toscana e Sicília (Itália); Istambul (Turquia);
Bahia, Minas Gerais e Amazonas (Brasil); Lima (Peru); e Buenos Aires (Argentina)
Algumas passagens interessantes (tiradas do site NatGeo): em Paris, Josimar vai ver como funciona, quais são os critérios, quem são os responsáveis pelas resenhas do Guia Michelin, entre outros, encontra com Alain Passard e Alain Ducasse; na Toscana, entrevista Dario Cecchini, considerado o maior açougueiro do mundo, vai atrás da trufa branca nas colônias locais, e visita a Enoteca Pinchiorri, em Florença; na Bahia ,visita Dona Canô, a fábrica de charutos Menendez Amerino, a Feira de São Joaquim, o terreiro de Pai Marivaldo, e o Varal da Dadá.
Os programas vão ao ar sempre aos domingos, às 20hs, por 3 meses. A programação completa e o conteúdo dos programas podem ser conferidos no site da emissora.
quinta-feira, 2 de julho de 2009
O encantador Jun Sakamoto
Para Jun, a comida tem que encantar, tem que ter alma. Se não encantar, então não é boa. Ele citou o Mocotó do Rodrigo Oliveira, outro encantador. E os dois até que se parecem, começam tímidos, mas quando o assunto comida toma conta da conversa, se soltam totalmente. Estão em casa.
Se o segredo da comida, está no encantamento, o do sushi está no arroz. Esses dois aprendizados foram os mais importantes da vida de Jun, que aos 43 anos, comanda seu próprio restaurante mantendo práticas que os velhos mestres adotavam para garantir qualidade: escolhe pessoalmente tudo o que utiliza como o peixe, o arroz, o shoyu, o wasabi e o vinagre etc.
Ao ser questionado sobre os utensílios que utiliza, ele falou sobre a importância da faca e de outros itens importantes da cozinha, mas deixou claro que isso não é o essencial. Afinal, "culinária não é razão, é emoção, os utensílios não passam de instrumentos, mas se for possível, utilize o melhor". Ele citou o ex-nadador Carl Lewis: Ele não era o melhor nadador porque usava a melhor sapatilha, mas, com certeza, usava a melhor sapatilha.
O bate-papo fez parte de um ciclo de três palestras sobre gastronomia japonesa, promovido pela Fundação Japão: a primeira, com Josimar Melo, e a segunda, com Arnaldo Lorençato. O ciclo todo foi muito interessante porque fugiu do lugar comum de culturar personalidades. Foi uma troca de experiências entre pessoas que têm em comum a curiosidade e o amor pela gastronomia japonesa, que conseguem enxergar num prato de comida muito além do que uma simples mistura de ingredientes e temperos.
sexta-feira, 26 de junho de 2009
E o sushi foi parar na churrascaria!
Na quarta-feira fui assistir à palestra do Arnaldo Lorençato sobre culinária japonesa na Fundação Japão. Só o conhecia de nome, como crítico gastronômico da Vejinha SP. Fiquei surpresa ao ver que ele é muito mais que um apreciador da comida japonesa. Ele é um conhecedor da cultura e da gastronomia japonesa.No começo da apresentação dele, ele exibiu um pequeno trecho do filme Noite vazia, que o Walter Hugo Cury fez em 1964. O filme mostra Odete Lara e Norma Bengell (no papel de duas prostitutas) com um cliente num restaurante japonês da Liberdade e a cena que dá inicio ao filme, mostra a cara de pouco caso das duas com a comida do lugar, só esperando a hora de sair dali pra comer uma pizza. Foi interessante o Lorençato mostrar esse trecho do filme no contexto da gastronomia, porque eu o tinha assistido nos anos 1970 quando estava na faculdade e só me lembrava dele como um filme interminável, com algumas pessoas presas entre quatro paredes numa conversa também interminável.
Mas voltando à culinária japonesa, o crítico lembrou que nos anos 1960 era totalmente estranho alguém sair de casa pra comer comida japonesa. Peixe cru, então, nem pensar! Ele também disse que era impensável que a cidade de São Paulo um dia viria a ter mais restaurantes japoneses do que churrascarias. E o que dirá das churrascarias colocarem sushi nos buffets! Temakeria? É moda daqui. A mistureba de sabores? Também. Pra quem quiser saber mais sobre sushis, a revista Made in Japan nº 66 publicou uma matéria extensa sobre o tema (a foto é da matéria)
Sei que meus amigos me chamam de japa paraguaia porque não como peixe nem carne crus, mas eu preservo muitos dos ensinamentos de minha mãe, e um deles é: quanto mais perto do original, ou seja, quanto menos frufru, melhor a comida. O sushi e o sashimi eram comidas servidas nos dias especiais, não era do dia-a-dia, afinal, quem tinha tempo pra ficar enrolando arroz nas algas? Mas o que eu ainda mais gosto é do makizushi, aqueles que os brasileiros chamam de "pneuzinhos" e outros de futomaki (foto) - de alga nori (preta) envolvendo o arroz e um recheio de cenoura, nabo seco, gengibre e o kamaboko (pasta de peixe) cozidos. É delicioso.
Os cozidos também sempre fizeram parte da mesa lá de casa. O melhor era um que se cozinhava num caldo de peixe, shoyu e alga e misturava inhame, nabo, cenoura, gobô (bardana), shitake, tiquá (pasta de peixe), tofu, e uma espécie de gelatina (que eu não gosto até hoje) que é o konnyaku (pasta de raiz konnyaku). Mas o cozido era fantástico e era presença obrigatória em qualquer almoço especial ou festa. Sempre faço em casa, com bastante inhame.
Bem, o ciclo sobre culinária japonesa, que começou com o Josimar Melo, termina na próxima quarta, com a palestra da Jun Sakamoto.
O novo homem
E por falar em novo homem, assisti à peça escrita pelo Contardo Caligaris - O Homem da Tarja Preta - sobre o novo homem e suas agruras. Agrura mesmo foi ficar até o fim, a peça era cheia de clichês. Só fiquei até o fim em respeito ao ator, o Ricardo Bittencourt, que era muito bom. A gente vai ao teatro ou ao cinema movido por um diretor, por um roteirista, por um ator. E chega lá...
sexta-feira, 19 de junho de 2009
Os 65 anos do Chico
À procura de um olhar: Fotógrafos franceses e brasileiros

O time de fotógrafos é este: Pierre Verger, Marcel Gautherot, Claude Lévi-Strauss, Jean Manzon, Bruno Barbey, Olívia Gay e Antoine D’Agata, Mauro Restiffe, Tiago Santana (foto acima), e Luiz Braga.
Por aí já dá pra sentir que a exposição À procura de um olhar: Fotógrafos franceses e brasileiros que está na Pinacoteca é sensacional. Diante de algumas imagens dá vontade de chorar. A realidade crua, bonita, feia, cruel, tudo ali, na sua maioria em preto e branco. Tiago Santana é, sem dúvida, um dos melhores do Brasil e foi ótima escolha pra representar nossos profissionais.
A exposição faz parte das comemorações do Ano da França no Brasil e fica na Pinacoteca até 28 de junho de 2009.
Afinal, como morre o peixe?
Ao falar da frescura dos alimentos, ele contou sobre a técnica de se matar o peixe e cortá-lo na mesma hora. A primeira técnica, seria a de um corte incisivo na nuca (peixe tem nuca?), e a segunda, seria a de enfiar uma espécie de arame bem no olho do peixe pra atingir esse ponto lá atrás. Nas duas opções, a morte do bichinho é súbida, porém ele continua se movimentando. Dá a impressão de que ele está sendo cortado vivo. Meio sádico, não é?
Daí ele disse uma coisa curiosa sobre a frescura do peixe (a gente não para pra pensar muito nisso). Quando uma pessoa diz que o peixe que comprou está fresco, só pode afirmar isso se o mesmo estiver vivo ou recém pescado. Segundo Josimar, a compra do peixe pode ser fresca, mas na maioria das vezes, os consumidores compram os bichinhos do feirante, que por sua vez comprou do vendedor do Mercadão, que por sua vez comprou dos vendedores do Ceasa, que por sua compraram dos barcos de pesca que estão no mar por períodos de até 30, 40 dias. Ou seja, quem é o fresco na história?
terça-feira, 16 de junho de 2009
Êita frio danado!
O buraco quente.
Na primeira vez que falei em buraco quente o povo olhou feio, achando que eu tava de gozação, não não era não! Buraco quente é a melhor invenção de todos os tempos. Pra quem ainda não foi apresentado, trata-se de carne moída refogada com cebola e tomate, com bastante tempero - sal, pimenta, coentro, cebola e azeitona. Fica bem molhada. Daí abre-se um buraco num lado do pão francês e dá-lhe carne moída. A carne deve estar quente, e o pãozinho, bem fresquinho.
Quer mais? O resto, a gente nem fala porque tem sempre - quentão, vinho quente, paçoca, pé de moleque, bolo de milho, cuscuz, bingo etc. Eu adoro!
100 Patativinhas em Santo Amaro
Acho demais essas iniciativas que colocam as crianças em contato com nossos criadores, sejam eles poetas, escritores, músicos etc. E da forma mais lúdica possível. Não é gostoso aprender desse jeito?
Um dias desses assisti a um debate na Fundação Perseu Abramo com o José Castilho, da Unesp e do Programa Nacional do Livro e da Leitura, a Lúcia Rosa, idealizadora do Projeto Dulcinéia Catadora, e o Sérgio Vaz, poeta e fundador da COOPERIFA. É impressionante a quantidade de ações de incentivo à leitura que estão pipocando pelo país afora. Incrível mesmo porque essa é uma das coisas que penso fazer no futuro. Quem sabem montar uma biblioteca numa garagem de uma casa para os passantes, como fez um rapaz no interior de São Paulo.
Nada de substituir as bibliotecas públicas, que agora o governo federal pretende que sejam de acesso público, o que faz muita diferença. De um lugar onde se exige silêncio e parcimônia para folhear livros, passaria a ser um lugar de convivência, onde lidar com livros seja uma atividade prazeirosa tanto para os estudantes como para a comunidade. Esse é um sonho que muita gente que ama os livros acalenta há muito tempo. Parece que está perto de acontecer.