terça-feira, 28 de abril de 2009

O último chef chinês

Estou lendo o livro O último chef chinês, da americana Nicole Mones (Ed. Suma de Letras). O texto é de uma delicadeza sem igual e a história muito boa. A autora conta que uma americana vai para a China resolver pendências do seu finado marido, que teria deixado nada menos que uma filha de herança. Na China ela conhece um chef de cozinha sinoamericano, que voltou para a terra de seus antepassados para resgatar as antigas formas de tratar os alimentos. Ele, juntamente com seu pai, está traduzindo o livro O último chef chinês, atribuído a um antigo cozinheiro - Liang Wei - e trechos dele são introduzidos no meio na narrativa da autora.

Duas coisas interessantes ficaram registradas: a primeira, "a comida é para ser compartilhada"; e a segunda, "a comida tem poderes". Um dos trechos atribuídos ao último chef é este:

Os mestres nos dizem que os poderes misteriosos do outono criam
secura no céu e metal na terra. Dos sabores, criam os pungentes. Entre as emoções, criam o pesar. Pesar
não pode ser isolado entre paredes nem mantido próximo
por muito tempo. Ambos os casos levam à obsessão.
Para uma pessoa pesarosa, cozinhe com cebolinha, gengibre, coentro e alecrim.
O sabor deles é pungente, e isso tira o pesar do corpo e solta no ar.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Um recadinho para o amigo Tadeu

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se adiantasse, eu te confortaria com maçãs, mas sei que agora a dor é grande demais. Dizem que enterrar um filho é a pior coisa que pode acontecer a um pai. Nesta vida só fui filha, enterrei meus pais, o que não foi muito fácil.
Então, só posso te dizer que estou com suas maçãs.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Mistérios da superação

A revista Brasileiros, que está nas bancas, traz uma matéria especial de 20 páginas com o pianista João Carlos Martins. Hoje ele é maestro porque não pode mais usar as mãos pra tocar, mas pra mim ele vai ser sempre o pianista. O Kotscho e o Hélio Campos Mello fizeram a matéria durante uma viagem de ônibus de São Paulo para o Rio. A Orquestra Filarmônica Bachianas estava indo tocar na UERJ. Conheci o João Carlos e o Artur Moreira Lima lá pra trás e sempre fui encantada pela música deles. O João Carlos, depois do rolo da Pau Brasil/Maluf (explicado na matéria), caiu em desgraça e acabou fazendo carreira fora do Brasil. Fui acompanhando de longe as inúmeras desgraças que se abateram sobre ele e ficava pensando: o que é que uma pessoa que depende totalmente das mãos pode fazer quando já não pode usá-las? Bem, ele mostrou que quem não desiste, consegue enxergar alternativas. E a matéria dos dois jornalistas fala sobre isso mesmo, sobre os mistérios da superação dele. No fim, foi a desgraça dele que o tornou uma figura popular. Além de montar a orquestra formada por profissionais, colocou na rua outra formada por jovens músicos, e de quebra, vem influenciando muitos que achavam que já haviam chegado no fim da linha.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

O show na igreja

Marcaram a missa de um ano de morte da mãe para as quatro horas do domingo, hora do jogo do Corinthians com o São Paulo, numa igreja católica (ela era budista). Oh, dilema cruel! E por sinal, muitos dos presentes na igreja só estavam ali por causa dessas missas encomendadas. Aquela das quatro horas, era uma missa normal, mas estava sendo rezado em nome de uns trinta mortos. Alguns Iphone são vistos nas mãos de anti-fiéis católicos que se escoram nas pilastras do lado de fora da igreja pra assistir pelo menos alguns lances do jogo. Mas dentro da igreja, cenas surpreendentes. Lembram daquela missa dos tempos de criança? Começa a missa, canta-se o Pai Nosso, comunga-se e tchau, até domingo que vem?

Mas hoje não é mais assim. Os que não frequentam a igreja ficaram surpreendidos com as modernidades introduzidas na missa. Não chega aos pés do espetáculo-missa do padre Marcelo, mas era uma tentativa infeliz. O padre, um misto de regente da palavra de Deus e de animador de palco orientava o rebanho "Agora vamos acenar", "Agora vamos cantar". Pra ajudar, ao lado do altar, um telão enorme mostrava as músicas em letras garrafais. Depois da comunhão, pasmem! Entrou no ar, digo, no telão, o "Informativo Paroquial", um arremedo de telejornal. Então, entre uma parte e outra da missa, você assiste ao telejornal com as últimas daquela igreja. "Parabéns ao padre tal que faz aniversário este mês", "Começa o curso de catequização", entre outras importantes informações que nenhum paroquiano deve ignorar.

O show parecia interminável, mas pelo o Corinthians não fez feio.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Olha ele aí, gente!


Patty Difusa já tinha antecipado, mas como sou desconfiada, tive que ver pra crer. Neste caso, ler pra crer. Ela estava encantada com a escrita do Chico Buarque em Leite Derramado (Companhia das Letras) e com a densidade do conteúdo. Me disse que não conseguia parar de ler. Fui até a Livraria Cultura pra um debate e comprei um exemplar do Chico. E ela tinha razão. Eu só parei de ler quando percebi que cabeceava em cima do livro. Consegui ler cinco capítulos. E este livro é interessante porque são momentos de lucidez intermeados com sonhos, e as histórias são divididas em capítulos que podem ser lidos fora de ordem. Mas eu sigo a sequência, afinal, alguma razão pra essa ordenação o Chico deve ter tido.

A editora jogou todas as fichas nesse lançamento. Criaram até o site Leite derramado de onde tirei a foto do Chico e este trecho do livro:

Um padre chegará para a visita aos enfermos, falará baixinho palavras em latim, mas não deve ser comigo. Sirene na rua, telefone, passos, há sempre uma expectativa que me impede de cair no sono. É a mão que me sustém pelos raros cabelos. Até eu topar na porta de um pensamento oco, que me tragará para as profundezas, onde costumo sonhar em preto-e-branco.